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domingo, 6 de janeiro de 2013

A Busca da Felicidade - Capitulo VI

Capitulo VI


Abriu os olhos lentamente observando uma nesga de sol que entrava pela cortina. Seu corpo ainda estava rígido, mas não tanto como no dia anterior e o braço continuava com o seu latejar, só que menos intenso.

Sentou lentamente olhando para a cadeira vazia perto da sua cama imaginando se fora um sonho Valentim for até seu quarto, mas ele sabia que fora real. Ele não entendia o que ele queria agora. Não acreditava que o outro estava com dor na consciência por ele.

— Bom dia – Sacha entrou sorrindo com uma bandeja – Ainda bem que acordou, eu trouxe o seu café. Você não jantou e deve estar morrendo de fome.

— Bom dia mãe. Estou com um pouco.

Ela colocou a bandeja nos seus joelhos e sentou na cadeira o olhando com carinho.

— Vim de madrugada ver você e encontrei Valentim aqui. Ele me disse que você estava com dor e que só dormiu depois de tomar o remédio. Que bom que parece que vocês estão se entendendo.

Ela parecia feliz e ele deu um sorriso sem graça. O que Sacha ia achar se descobrisse que Valentim era o culpado dele estar machucado? Dele estar chantageando Mauro? Mas ele nunca ia dizer isso, nunca mesmo. Isso ia matar o sorriso de Sacha e trazer briga para todos e ele não queria isso.

— Bem você está de molho por cinco dias.

— Que?! – ficar ali olhando para o tempo tantos dias?

— O médico disse que nada de esforços Mauro – ela pegou a bandeja – Tome seus remédios e durma mais um pouco.

Ele não tinha um pingo de sono e depois de uma hora já estava morrendo de tédio quando alguém bateu na porta.

— Entre – disse grato por ter companhia.

Era Heitor. Ele estava lindo com seu jeans apertado, camiseta preta justa e suas botas de cano alto. Ele tinha tentado domar os cachos, mas eles já escapavam do gel formando um alo em torno de sua cabeça. Seus olhos verdes brilhavam e ele sorria para ele de modo carinhoso. Ele carregava uma caixa.

— Ola! Como você está?

— Oi Heitor! Bem parece que uma tora caiu em cima de mim.

Ele riu e bagunçou os cabelos de Mauro que já deviam estar um terror e entregou o pacote para ele.

Curioso Mauro abriu o pacote vendo o livro que havia ali.

— Você se lembrou! – o rapaz apertou o livro de encontro ao peito.

— Fui a Londrina resolver uns problemas e vi a livraria e não pude deixar de pensar em você e resolvi comprar para você, espero que goste.

— Obrigado Heitor – por impulso elem deu um abraço apertado no outro.

Não acreditava que o outro não tinha esquecido o que ele dissera em uma de suas conversas. Naquele dia olhando o verde em volta deles Mauro disse que lembrava um pouco as paisagens do filme Senhor dos Anéis e que ele sempre desejara ler o livro alem de ter visto o filme mais de dez vezes.

— Que bom que gostou – disse ele segurando o rosto de rapaz e o olhando de forma tão intensa que Mauro ficou vermelho.

— Continua sendo uma gracinha – disse Heitor e o beijou.

Mauro foi pego totalmente desprevenido. Os lábios de Heitor eram macios, quentes e seu beijo tinha sabor de hortelã. Era inebriante e viciante, ele não queria mais parar de beijar o outro, mas tudo que era bom dura pouco. Heitor se afastou e o outro o olhou sem entender.

— Mauro me desculpa eu acho que passei dos limites, eu...

— Heitor eu adorei o seu beijo e por mim você pode passar dos limites todos os dias.

— Bobo – ele fez um carinho no rosto de Mauro – Eu não sabia se estava interpretando os sinais certo, mas cada vez que eu ti olhava tinha vontade de ti apertar e beijar.

— O que eu não acredito é que você seja gay.

— Eu tambem não sabia se você era.

— Bem – Mauro voltou a recostar na cama abraçando o grosso volume – Eu na verdade nunca sai do armário, estava com medo demais do meu pai e do mundo para isso. Quando enfrentei tudo pela primeira vez acabei tendo que fugir de casa.

— As coisas não são fáceis para nem um de nós Mauro – ele segurou a mão dele – O que vou ti contar é algo que só minha família sabe, apesar de eu ter assumido minha sexualidade há algum tempo. Meu pai tambem não aceitava a homossexualidade e era ferrenho combatente dela e eu descobri que era gay aos treze anos quando fiquei duro olhando amigos meus nus. Foi um choque pra mim e eu tentei mudar isso de todos os modos por um ano, mas eu percebi que mulheres não me atraiam sexualmente de modo algum e cometi o erro em achar que meu pai entenderia – ele acariciou a palma da mão de Mauro – Mas ele não entendeu e me deu uma surra tão forte que só não morri porque minha mãe e irmãos o impediram. Fiquei internado e com tanta raiva Mauro, aquilo acumulava dentro de mim. Eu tinha raiva de minha mãe e dos meus irmãos por não terem interferido no inicio e do meu pai eu guardava o mais profundo ódio. Eu nunca voltei para casa depois daquele dia, eu fugi do hospital e usando caronas cheguei até Curitiba. Vivi nas ruas muito tempo, fiz bicos, pratiquei pequenos furtos até arranjar algo em uma construtora. Era um serviço pesado que me deu músculos e me fez ficar mais maduro. Durante muito tempo eu fiquei tentado em ligar para casa, mas eu estava preso no meio da minha raiva até que vi algo um dia em uma lan house – Heitor lançou um olhar triste para Mauro – A minha foto Mauro em um site de buscas de pessoas desaparecidas, um site que meu irmão havia criado para tentar me achar. Já faziam dois anos e eu não sabia o que fazer, havia tido raiva deles tanto tempo que nem saberia por onde começar.

Mauro afastou-se e pediu para ele sentar na cama do lado dele e assim que ele fez o abraçou e fez ele deitar a cabeça em seu ombro. Não disse nada, aquele era o momento de Heitor desabafar.

— Acredito que não teria entrado em contato por puro orgulho se não tivesse ficado doente. Uma apendicite de emergência e precisavam de alguém da família ali e eu liguei para casa depois de tanto tempo. Não sabe o quando doeu ouvir minha mãe chorar e perguntar em total desespero onde eu estava. Algumas horas depois estavam todos ali, mas eu tive que ser operado com rapidez e quando acordei eu vi meu pai e minha mãe perto de minha cama. Assim que me viram acordar os dois começaram a chorar. Aquilo me desequilibrou totalmente, eu pintava meus pais como pessoas frias e distantes, mas não era assim. Meu pai me pediu desculpas e implorou para que eu voltasse para casa e no final era o que eu mais queria, voltar para o meu canto com meus pais e irmãos. Não foi um mar de rosas depois, mas eles tentavam aceitar os namorados que apresentava e começaram a enfrentas as pessoas por minha causa.

Mauro pensou na raiva que tinha do seu pai, mas algo lhe dizia que Luiz Gustavo não estava lhe procurando para levá-lo de braços abertos para a sua casa, mas para por um fim na sua existência que poderia manchar a sua limpa honra.

— Admiro deu pai Heitor – disse Mauro acariciando os cachos dele – Fez tudo para ter o filho e volta.

— Depois de tudo ficamos mais perto e me arrependi de toda a raiva que juntei dele.

Mauro sentia o cheiro de Heitor. Almiscarado, de algum perfume caro, mas havia outro como o do mato recém cortado e da terra lavada pela chuva. Era embriagador e ele queria sentir esse perfume o tempo todo.

Heitor deu um sorriso e voltou a beijá-lo. Sua língua pedindo passagem para explorar a boca do rapaz que se derretia debaixo das cobertas. Sua ereção dura roçando no tecido do pijama.

Heitor aventurou a mão por sobre a camisa do pijama acariciando seus mamilos sensíveis e Mauro se segurou para não gritar de prazer ao tê-los puxados a acariciados pelos dedos ásperos do outro.

— Você me deixa louco – confessou Heitor ao desfazer o beijo – Desde que ti conheci é o seu rosto que aparece à noite nas minhas fantasias e é seu corpo que sonho acariciar e lamber todo.

— Ó Deus, assim você me deixa louco – disse Mauro sentindo a ereção ainda mais dura.

Com um sorriso safado, Heitor retirou os cobertores e puxou sua calça de pijama e sua boxer revelando seu pênis ereto e já com pré sêmen caindo dele.

— Tão lindo – disse Heitor segurando o grande pau pela base e dando um beijinho na ponta – Um lindo pau que está me dando água na boca – e abocanhou o pênis com gula.

Em choque, Mauro jogou a cabeça para trás apertando o punho para não gritar. Imagina o que ia acontecer se alguém chegasse? Ele nem queria pensar, na verdade ele nem podia com a boca quente de Heitor lambendo e sugando seu membro sensível. Nunca fizera isso na vida, apenas a sua mão já tocara o seu membro e ter Heitor fazendo maravilhas com a boca e sua mão áspera acariciando as suas bolas foi o suficiente para ele gozar como um louco dentro da boca de Heitor de bebeu tudo como se fosse néctar delicioso que não podia deixar escapar nem uma gota.

Mauro estava ofegante e tonto depois do maior orgasmo de sua vida. Heitor voltou a beijá-lo repartindo seu gosto com ele.

Depois de tudo ele teve as roupas arrumadas e as cobertas puxadas por sobre ele.

— Foi delicioso – disse Heitor no seu ouvido – Não vejo a hora de você melhorar e poder foder essa bela bunda.

— Eu nunca... nunca...

— Xiii! – Heitor colocou um dedo em seus lábios – Não tem importância. Só de pensar que eu vou ser o primeiro fico inda mais duro.

Mauro olhou para o volume na apertada calça jeans dele.

— Eu posso ajudá-lo.

— Estou me guardando para a sua bela bunda Mauro – ele riu quando o menino ficou ainda mais vermelho – Preciso ir, mas volto amanhã. Aproveite o livro de descanse.

Mauro já estava dormindo quando ele saiu, aninhado entre os cobertores ele tevês lindos sonhos com o belo homem de olhos verdes e foi acordado pela mãe na hora do almoço.

— Você parece bem melhor – disse ela sorrindo – Soube que Heitor esteve aqui.

— Ele me trouxe um presente – disse Mauro mostrando o livro e ficando um pouco vermelho com o pensamento do que tinha acontecido mais cedo.

— Heitor sempre foi muito gentil – ele sorriu sentando perto dele e colocando a mão em sua testa – O que acha de descer um pouco depois do almoço?

— Sim, por favor!

Sacha riu do desespero do menino e quando ele terminou de comer se vestiu com um short e uma camiseta e desceu com a mãe para a sala. Eles foram para a varanda sentar o observar o dia que havia ficado um pouco quente. Nuvens escuras se levantavam novamente no horizonte mostrando que mais chuva vinha por ai.

Mauro olhou para a vista. Os jardins bem cuidados da casa, os armazéns e a estrebaria. Alem disso haviam duas casas que ficavam ao fundo da fazenda que ele não tinha reparado.

— Eu nem tinha notado as casas mãe.

— Eram casas de empregados, mas agora só uma esta ocupada, pela Duda.

— Ela mora com a família?

— Não filho, ela é sozinha. Pai e mãe mortos pelo câncer, os irmãos não queriam saber dela mesmo que ela tivesse devotado sua vida toda em cuidar dos pais. Uma amiga minha da cidade me falou dela quando estava procurando alguém para cuidar da casa e quando a conheci não tive dúvidas, contratei ela. A única coisa que ela queria era um cantinho só dela e por isso reformamos a casa e a deixamos morar ali.

— Eu gostei dela.

— Que declaração fofa! – Duda estava chagando na varanda rindo – Não andou contando histórias tristes para ele, não é?

— Me conhece Duda, adoro um drama.

Ambas rirão e Mauro deu um leve sorriso.

— Porque não vai conhecer o estúdio do Dalton? – perguntou Duda – Parece que você esta meio entediado. Fica atrás da casa.

— De uma saída, mas cuidado com esse ombro.

— Sim senhora.

Ele contornou a casa e viu um barracão no fim do jardim. Andou até lá ouvindo o barulho de uma serra. A porta estava aberta e ele viu uma coleção de peças inacabadas, bustos, estatuetas de pessoas e animais; haviam bancadas nas paredes e armários de aço.  Ele as fazia de madeira e argila e havia esse material por todo o lado.

— Ola! – disse Mauro tentando não assustar Dalton que estava usando uma pequena serra para cortar um pedaço de madeira.

— Oi! – ele desligou a serra e retirou o capacete e a viseira pedindo para ele entrar – Parece que você melhorou.

— Melhorei, graças aos cuidados de todos vocês.

— Sente aqui – ele apontou para uma cadeira de balanço a um canto – Quando Chico ligou dizendo o que tinha acontecido achei que a mãe ia desmaiar.

— Sabe é estranho ter alguém tão preocupado assim comigo, me sinto um pouco perdido.

— Mas é bom, não é?

— Muito – ele olhou em volta – Tudo o que você faz é tão bonito, não sei como consegue, eu nem saberia começar.

— Eu sempre fiz pequenas esculturas em galhos e dava para os meus irmãos, um dia peguei uma faca afiada e comecei com uma madeira maior e quando vi era isso que eu queria fazer da minha vida. Não vai me deixar rico, mas eu faço o que gosto.

Mauro observou no fundo um cavalete.

— Você tambem pinta Dalton?

— Eu tentei, mas essa não é a minha praia. Acabou ficando as telas e tintas que comprei. Eu só preciso terminar uma escultura para um comerciante de Mendes e posso lhe mostrar tudo.

Ele voltou para uma estatueta de uma mulher vendada e Mauro lembrou de tê-la vista nos escritórios dos advogados, a Justiça, vendada representando que todos eram iguais perante ela.

Ele foi até os fundos olhando o cavalete e um pedaço de grafite. Quase sem querer ele começou a desenhar uma pessoa montada em um cavalo, trotando em um vale com as bordas escuras como preso em uma tempestade.

— Eu não sabia que você desenhava – disse Dalton sorrindo e chagando perto dele.

— Desculpe Dalton, eu mexi em suas coisas.

— Deixe disso Mauro – ele olhava para o desenho em preto e branco – Nossa parece que ele esta saindo das sombras, como se o mundo estivesse se construindo daí. Decididamente você fez Valentim mais bonito do que ele é de verdade – Dalton riu, mas Mauro empalideceu ao ver que tinha desenhado o desagradável – Olha eu tenho tintas e se você colorir vai ficar a coisa mais linda do mundo. Você tem talento Mauro, nunca pensou nisso?

— Isso é bobagem Dalton – disse ele largando a grafite e balançando a cabeça – Eu só sei desenhar umas linhas. Preciso ir, tchau.

O rapaz olhou o outro ir embora e depois para a beleza da tela que tinha diante de si. Mesmo ferido ele conseguia criar uma bela obra.

— Mauro o que fizeram com a sua auto-estima?



    



Premio para a Gangue!!!

Pessoal, a Gangue dos Livros Homo ganhou um premio:


Muito merecido por sinal. O site é maravilhoso e nos presenteia sempre com livros, filmes e animes de tirar o folego. Para quem ainda não conhece o site fica ai uma dica:
http://ganguelivroshomo.blogspot.com.br/
E há outra coisa que me deixou eufórica a ponto de ficar aqui giranda na cadeira como uma criança. Vejam só, eles tambem dariam esse premio a outros blogs e o Valfenda estava entre eles. 
Foi a coisa mais incrível ler o nome do blog ali e ver que estão gostando a ponto de indicar o nosso blog tão acanhado. Não sabem o quanto estou feliz por ter sido lembrada e por vocês! Merecem isso e muito mais pessoal da gangue. 
Para alguem que escreve vocês me deixaram sem palavras.
Muito obrigada!









sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Busca da Felicidade - Capitulo V

                                                                             Heitor




Capitulo V


Assim que saiu da sala de recuperação apoiado em Wagner ele percebeu que todo mundo estava na pequena sala de espera do hospital: Kaila, Dalton, Bruno, Heitor, Giovanni e… Valentim com uma cara que ele não saberia decifrar nem mesmo quando estava sóbrio. O remédio para dor fora bastante forte para ele estar bem grogue.

— Mauro! – Kaila pulou e ia abraçar ele quando Sacha a segurou.

— Calma Kaila – ela deu um leve sorriso para a menina – Abraços de urso agora vão doer um bocado.

— Ai desculpa! – ela deu um beijo no rosto dele – Como você está?

— Me pergunta quando passar o efeito do remédio – disse ele sorrindo para ela.

— Cara você nos deu um baita susto – Bruno seguiu o conselho da mãe e apenas tocou no ombro bom dele.

— Desculpe.

— Isso acontece – Dalton também chegou perto dele com seu sorriso que sempre parecia iluminar tudo à sua volta – Trabalhar na fazenda é meio perigoso, mas tropeçar em um buraco de tatu Mauro?

Mauro começou a rir mesmo com a dor e logo estavam todos gargalhando da sua situação menos Valentim que olhava tudo muito sério. Heitor observou isso pelo canto do olho e começou a juntar algumas peças. Ia ter uma conversa com aquele rapaz, a se ia ter!

— Mauro... – Giovanni chegou perto dele esfiapando u chapéu de palha na sua mão.

— Seu Giovanni desculpe por ser um tonto – disse Mauro imediatamente – Eu desobedeci o senhor achando que podia carregar a tora. Me desculpe mesmo. Serei um exemplo de obediência de agora em diante.

Giovanni ficou vermelho e depois olhou com um sorriso agradecido para o menino.

— Todos nós fazemos loucuras às vezes filho – Heitor captou o fugaz olhar do pai para Valentim.

— É melhor irmos – disse Wagner – Parece que esse aqui vai ficar de molho umas semanas, por isso vai ter tempo de pensar na burrada Giovanni.

— Ele estava fazendo um bom trabalho Wagner, saiba disso.

— Olha – Wagner olhou para o menino – Giovanni não costuma elogiar seus trabalhadores, sinta-se honrado.  

O menino lançou um olhar agradecido para ele e se foi apoiado no ombro de Wagner com o resto da família, mas Heitor segurou o ombro de Valentim que era o ultimo.

— Pensei que você era uma boa pessoa Valentim!

— Qual o seu problema Heitor?

— Usou sua posição de dono da fazenda para obrigar meu pai a ordenar que Mauro carregasse ou mourões. Isso não é coisa que uma pessoa faça!

— Anda vendo chifre na cabeça de cavalo? – respondeu o outro com sarcasmo e se virando para ir embora.

— Não. Estou vendo um idiota que se divertiu torturando uma criança.

Valentim não respondeu a ofensa mesmo porque ele sabia que era verdade. Durante a semana ele observou o menino vendo que ele não reclamava, era pontual e carinhoso com a mãe. Ele queria tanto acreditar que Mauro era o vilão da história que não percebia que ele estava fazendo esse papel e apenas notara isso quando chegou a noticia de que o menino se acidentara.

Droga! Onde ele estava com a cabeça para obrigar Giovanni a fazer isso? Agora parecia que seu grande amigo estava cheio de raiva dele.

Como ele ia consertar isso? Pedir desculpas? Para aquele moleque que olhava para ele como de fosse algum tipo de larva?

Sabia que merecia isso, mas fazer era outros quinhentos. Toda a sua vida ele ficou posando de irmão mais velho, aquele que cuida, que não erra e não pedia desculpas.

Ele deu um longo suspirou ao ver a família indo rumo ao estacionamento. Ele se metera na enrascada ele tinha que sair dela.

~~***~~

Mauro estava meio dormindo, mas mesmo assim teve seu primeiro vislumbre da cidade de Mendes. Era pequena, com ruas largas e arborizadas. Não havia prédios e as casas tinham um estilo europeu inconfundível com casas em estilo vitoriano e holandeses. Os jardins eram de encher os olhos e mesmo a mais humilde residência tinha o seu para mostrar. As lojas se enfileiravam na rua principal, uma grande avenida com um canteiro central com o canteiro central cheio de ipês de jardim em flor. Já era quase noite com as luzes se ascendendo para um céu cor de chumbo. Lá fora o vento soprava carregando flores amarelas e o ar tinha cheiro de umidade de mato, um cheiro limpo que acaricia a pele.

Estava no banco de trás apoiado no ombro da mãe que falava com Wagner sobre a chuva que não tardaria em cair e sobre a nova criação de gado.

Embalado pela doce voz de sua mãe ele adormeceu acordando quando a caminhonete parou.

— Chegamos – sussurrou sua mãe beijando seu rosto.

Ele ainda estava grogue pelo remédio e seu ombro começara a doer novamente. Ele se sentia cansado e o corpo rígido por ter dormido na estrada.

Com ajuda da sua mãe ele saiu e já ia se dirigindo para a estrebaria quando Sacha segurou seu ombro bom.

— Nem pensar nisso menino – disse ela com rosto em um esgar contrariado – Você não vai ficar sozinho naquele quarto sem ninguém para cuidar de você! Duda já arrumou suas coisas no quarto de hóspedes.

Mauro queria protestar, mas ele não tinha muitas forças para isso. Docilmente se deixou levar para dentro. O resto da família chegava com as caminhonetas atrás e isso enchia seu coração de calor. Pela primeira vez desde que ele se lembrava alguém se preocupava com ele daquele modo e ele se viu querendo participar da família, mas ele sabia que Valentim podia contar para eu pai a qualquer momento; ele tinha que ir embora o mais rápido possível.

Dentro da casa dona Lucia esperava eles sentada no sofá. Seu rosto era sério quando ele chegou perto dele e Mauro pediu a Deus para ela não vir com mais sarcasmos, estava ficando cansado deles.

— Bem, vejo que ele sobreviveu – ela resmungou e ele ficou vermelho – Eu fiquei preocupada em quem eu ia atormentar de manhã.

Para o seu espanto ela lhe deu um abraço, um tapa no ombro do filho e um beijo no rosto de Sacha.

— Como você é carinhosa mãe – resmungou Wagner esfregando o braço – Onde está o safado do seu outro filho?

— Eu não tenho outro filho, mas se está falando daquela largatixa do Godofredo ia passar da fazenda Santa Isabel e não me pergunte o porquê!

— Venha Mauro.

Sua mãe o levou para cima não sem antes ele captar um pequeno sorriso da velha senhora para ele.

Sacha o levou para um quarto no fim do corredor.

— Esse é meu quarto – disse Sacha abrindo a porta – Você precisa de um banho e o melhor vai ser de banheira e o meu quarto é o único que tem. Vou ti ajudar...

— Que? – Mauro nunca havia ficado mais vermelho – A senhora vai me dar banho?

— Eu sou sua mãe Mauro.

— Eu me viro sozinho.

— Você não tem nada que eu não tenha visto Mauro e agora entre no quarto.

— Sim senhora – se desse ele tinha batido continência.

O quarto da sua mãe era grande com uma cama de casal coberta com um edredom azul e branco, mas paredes eram brancas, assim como as cortinas. Havia armários brancos e pretos e uma penteadeira antiga em um canto coberta de perfumes de produtos de maquiagem. Um sofá perto da janela completava a decoração, alem de tudo havia uma porta.

— Sente um pouco enquanto eu encho a banheira e nem tente fugir!

Ele tive vontade de rir do jeito mandão da mãe. Seu pai também lhe dava ordens, mas muitas vezes elas vinham acompanhadas de algum tapa e muitos gritos.

Ele foi até a janela sentindo o cheiro de terra molhada mostrando que a chuva não tardava. Gostava da chuva, de ficar deitado em sua cama à noite ouvindo a chuva bater na janela, eram seus únicos momentos de paz.

— Vamos lá – sua mãe apareceu na porta do banheiro e ele ficou vermelho como o por do sol.

— Será que posso ao menos tirar a roupa sozinho mãe?

— Se você cair Mauro e mesma desloco o seu outro ombro!

Ele riu da raiva dela e entrou no banheiro. Era grande, com um grande armário com tampo de mármore que ia de um lado ao outro fazendo também às vezes de pia. Estava cheia de perfumes, cremes, aparelho de barbear, loções, pentes, escova, um secador encostado em um canto. O chuveiro era protegido por um boxe de vidro e a banheira de hidromassagem ficava no centro do quarto. Era enorme e na cor preta contrastando com os pisos e azulejos do banheiro que eram imaculadamente brancos. Ela estava até a metade com água e com bastante espuma como os filmes que ele via na TV.  

Retirou as roupas e as colocou em cima do balcão dobradas e entrou com facilidade na banheira erguendo o braço e a colocando em cima da beirada desta. Deu uma olhada para ver se suas partes intimas estavam escondidas pela espuma e chamou e mãe que entrou com uma ar de riso.

— Nem parece que você saiu da minha barriga. Quanta vergonha!

— É que eu nunca fiquei pelado na frente de ninguém.

— Nem de sua namorada?!

“Beleza Mauro! Agora explica para a sua MÃE que você é gay e ainda por cima virgem”.    

Mauro ficou mudo, sem saber como contar para ela sobre a sua vida.

— Mauro eu sei que isso não é da minha conta, desculpe.

Ela pegou xampu e condicionador junto com uma caneca de plástico e começou a lavar os seus cabelos. Podia não ser a melhor hora para falar disso, mas ele não achava que devia continuar escondendo de sua mãe.

— Sabe mãe eu acho que é sim da sua conta, porque você é minha mãe e pela primeira vez em muitos anos tenho alguém que se preocupa comigo – ele observava as bolhas de sabão enquanto falava – O pai ficou cada vez pior. Ele não ouvia ninguém e de repente achou que devia limpar o mundo das anormalidades, era como ele chamava as pessoas homoafetivas. Ele e outros fazendeiros imbecis criaram o que eles chamavam de Frente Conservadora. Com a ajuda do dinheiro que comprava o silencio e a conivência da policia, eles passaram a expulsar essas pessoas da cidade. Usavam a violência e tudo o mais, além de constranger eles em público. Era só nisso que ele falava o tempo todo, da sua raiva contra as aberrações – ele não ia falar das surras e do que tinha passado nas mãos dele, não agora – Um dia eu perdi a paciência e gritei com ele, falei que era... gay como as pessoas que ele abominava. Ele pegou uma arma e eu fugi e não sei que obra do destino me trouxe aqui, mas eu agradeço.

Durante todo o tempo em que ele estava contando a sua mãe não falara nada. Ela continuou a lavar os seus cabelos com cuidado. Sua expressão era neutra e aquilo estava sufocando Mauro, mas ele não ia empurrar ela mais.

Ele não conseguiu terminar o banho e no final ela o enxugou. Estava sentado na cama dela com a mãe esfregando a toalha no seu cabelo loiro quando ela falou do assunto.

— Mauro seu pai sempre foi um homem preconceituoso e achei que isso podia mudar com o tempo, que era coisa de momento. Eu era uma idiota e fui mais idiota ainda por ter deixado você com ele.

— Mãe – Mauro segurou o braço dela com a mão boa – Acha mesmo que ia conseguir algo contra o pai? Mesmo sendo algo terrível o dinheiro conta muito nesse país e isso ele tem bastante. No final ele ia dar um jeito de prendê-la e a senhora nunca ia poder ter uma família como essa.

— Mas e você meu amor? – ela se ajoelhou aos pés dele – O que foi da sua vida?

— O que eu aceitei. Eu podia ter lutado, eu podia ter ido embora, eu fui covarde mãe e a senhora não tem culpa nisso, eu nunca a culpei.

Sacha segurou o rosto dele e o beijou com infinito carinho.

— Obrigada meu amor.

— A senhora está decepcionada porque eu sou... – ele virou o rosto.

— Mauro não me importa se você é gay, na verdade eu nunca dei marcas às pessoas. Esse é homo, esse é gay. Não me importa mesmo, você é um bom garoto e isso sim me importa.

Mauro olhou para ela com lagrimas nos olhos.

Da porta sem que ninguém o visse Valentim observava a conversa sabendo que se fosse pego ali espiando sua mãe o esfolaria vivo, mas ele não podia deixar de ouvir a conversa dos dois.

Voltando para o quarto sua cabeça estava a mil. Ele achava mesmo que Sacha e Mauro estavam exagerando, mas algo na expressão dos dois dizia que não, que aquele homem era tão violento e louco como diziam.

O que teria acontecido com Mauro se ele tivesse ligado para Luis Gustavo? O pensamento o fazia estremecer.

Chegando ao seu quarto fechou a porta e encostou nela. Ele se considerava uma boa pessoa, mas suas ações não eram de pessoas boas. Ele havia agido como uma pessoa intransigente, preconceituosa e má. Sem escrúpulos em um havia obrigado Giovanni a mandar o rapaz a carregar as toras mesmo sabendo que o menino podia se machucar. Agira tomado pela raiva sem pensar nas conseqüências e agora Heitor e Giovanni estavam brigados com ele e Mauro ferido.

Como se conserta algo assim? Como ele podia mudar tudo que havia feito e não se sentir menos homem? Será mesmo que a sua masculinidade ia estar a perigo se ele se desculpasse?

Valentim esfregou os cabelos em total desespero e cheio de raiva se si mesmo.

~~***~~

Mauro acordou bruscamente. Estava tendo mais um dos seus pesadelos, mas agora ele podia acrescentar a dor em meio a isso. O efeito de remédio que recebera no hospital devia estar passando e agora seu ombro latejava de forma dolorosa.

Tentou voltar a dormir. No seu relógio em cima da mesinha de cabeceira marcavam duas em quinze da manhã ainda, todavia a dor atingiu níveis maiores ele no final ele não conseguia conter os gemidos e as náuseas.

Deus como aquilo doía!

Quando estamos com uma dor muito intensa parece que só a ela na nossa cabeça. Tudo gira em torno da dor e de alguma forma dela ir embora, de quando o tormento ia acabar.

Apesar do frio ele começou a suar e empurrou as cobertas trincando os dentes ao fazer qualquer movimento.

Ele nem viu a porta abrir até ter alguém perto dele.

— Mauro?

A merda! Tudo o que ele precisava era do Valentim ali com ele.

— Vai embora! – rosnou Mauro sem olhar para ele tentando não gemer – Me deixa em paz!

— Está sentindo dor? Tem analgésicos que compramos no caminho para cá.

Claro que sim. Como ele fora idiota em não procurar.

— Eu vou tomar. Será. Que. Você. Pode. Sair. Agora! – ele disse trinando os dentes.

— Saiba que você consegue ser ainda mais teimoso que a mãe.

A cabeça de Mauro não estava funcionando ou ele teria dado uma resposta altura, mas a única coisa que sua mente pensava era naquela maldita dor.

Valentim pegou dois comprimidos e um copo de água que estava em uma cômoda e levou para o menino encolhido da cama.

Mauro pegou o remédio e jogou na boca e depois o copo de água. Bebeu tudo, nem percebera que estava cheio de sede.

Agora ele só podia esperar que a dor diminuísse e que isso fosse logo.

Para o seu desespero Valentim sentou na cadeira perto da sua cama.

— O que você quer meu Deus! Só me deixe em paz.

— Você não está bem.

— Nossa que constatação obvia!

— Parece que a dor te deixa mal humorado.

— Mal humorado? – Mauro olhou ele pela primeira vez.

Estava vestindo uma camiseta e um short com os cabelos em desalinho e totalmente lindo.

— Valentim vai embora ou eu vou começar a xingar você!

— Vou ficar até o remédio fazer efeito.

Mauro bufou, mas outra pontada e ele se esqueceu de quem estava ali. Seu corpo se contraiu de dor e lagrimas involuntárias escorreram do seu rosto molhando a fronha do travesseiro.

— Já vai passar – a voz de Valentim era quase delicada, mas Mauro estava preso em sua dor para prestar atenção em qualquer outra coisa.

Depois de meia hora a dor começou a ceder e ele foi relaxando o corpo tenso, até que ele respirou aliviado e sentiu o sono chegando.

Olhou de soslaio para Valentim que ainda estava ali o observando e antes de adormecer ele se perguntou o que ele estava fazendo. Sem saber que Valentim se fazia a mesma pergunta.