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segunda-feira, 4 de março de 2013

Rumo ao Paraiso - Capitulo 11

Capitulo 11


Fabian acordou cedo para fazer o café de Márcio. Ele procurava não pensar na noite anterior, mas era inevitável. Fora tão bom ter a casa cheia de vida e Laércio estava tão lindo vestido daquele modo, parecia àqueles cowboys que ele já vira na TV.

Cada olhar ou pequeno toque o havia feito ofegar.

— Idiota! – contrariado deu um soco na própria cabeça – Vê se ti enxerga! Acha mesmo que um cara rico e lindo como Laércio vai querer algo com você? No máximo uma noite de sexo.

Esse pensamento o fez logo esfriar. Não era um pensamento feliz, mas ele tinha que encarar a verdade, ele era um ex-favelado que já havia feito muita bobagem na vida. Tinha que encarar a realidade e não se perder em um mundo de fantasia.

Desligou a cafeteira e abriu o armário retirando pães ali de dentro e foi até a geladeira pegar manteiga e geléia. Usou a torradeira para fazer torradas e ouviu os passos do irmão descendo as escadas com os cabelos molhados.

— Bom dia – disse ele sorrindo para o irmão – Não devia ter acordado tão cedo pelo meu café, eu dava um jeito, além disso, você começa hoje lá com as crianças.

— Não foi nada Márcio – disse ele sentando-se à mesa e pegando uma torrada – A Aninha volta hoje, não?

— Volta. Olha Fabian, eu adoro esses meninos, mas verdade seja dita, eles são terríveis quando querem, por isso seja enérgico e qualquer coisa ligue para o Laércio.

— Assim você me assusta – disse o irmão rindo, mas interiormente pensando no quanto cada uma das palavras de Márcio eram verdadeiras.

Fabian colocou um Gabriel alimentado e trocado no bebê conforto e saiu para a manhã fria de inverno. O sol surgia em meio a muitas cores, mas o vermelho predominava. Rajadas de ventos levantavam nuvens de poeira deixando tudo em um tom de ouro.

Laércio havia dito que deixaria a porta da cozinha aberta e ele entrou por ela se defrontando com um verdadeiro caos e Laércio no meio dele.

Haviam panelas sujas por todo o lado, pacotes abertos em cima da mesa e balcões. Na pia alguém tentara fazer algo com farinha e cobrira a mobília com uma fina camada branca e Laércio tinha farinha nos cabelos, rosto e camisa xadrez.

— Não ria! – resmungou ele contrariado ao ver Fabian morder os lábios, mas ele não conseguiu se controlar e caiu na risada – Muito engraçado!

— Desculpe – Fabian tomou fôlego – Mas eu não consegui resistir a sua cara branca.

O fazendeiro respirou raivoso e espanou a farinha das roupas e tentou tirar dos cabelos.

— Eu tentei fazer panquecas, mas essa não é a minha praia. Acabaram com o pão e eu nem notei, na verdade eu nem sei o que tem nesses armários, é a Aninha que cuida de tudo.

— Eu vou dar uma olhada e fazer uma lista de compras – ele tentou não voltar a rir – Que tal se lavar enquanto dou um jeito aqui?

Laércio bufou a saiu. Rindo Fabian deixou o bebê conforto em cima da mesa e começou a limpar os balcões e juntar as panelas na pia. Abriu os armários vendo que havia diversos preparos de massas e escolheu uma para fazer waffles já que ele vira uma maquina em cima de uma bancada.

Adicionou leite e ovos à mistura batendo manualmente enquanto a chapa esquentava. Foi fazendo os waffles, colocou a cafeteira para ligar, leite para esquentar e preparar um chocolate quente e lavar as panelas, enquanto guardava tudo fora de ordem. Varreu o chão enquanto os últimos waffles ficavam prontos.

Abriu a geladeira tirando manteiga e mel e colocou na mesa coberta por uma toalha limpa e o bule com o chocolate. O café ficava aquecido na cafeteira.

Balançou a cabeça satisfeito ao olhar tudo e se voltou para ver um Laércio boquiaberto com tudo limpo e arrumado assim como o café prontinho e ainda saindo fumaça.

— Como você conseguiu fazer isso em pouco tempo? Eu estou desde a madrugada lutando com essa bagunça!

— Eu gosto de cozinhar – Fabian riu – Já trabalhei em uma cozinha de restaurante a ali as coisas aconteciam rápido.

— Fabian! – Kauan foi correndo até o outro – Que bom que veio!

— Levantou cedo heim?

— Acho que todos nós sentimos o cheiro – disse Regina na porta ainda de pijama – Se cheira bem quer dizer que não é o pai quem fez.

— Ei! – Laércio virou-se indignado para a filha – Minha comida não fede!

— Ela cheira ao gás que sai do biodigestor – disse Samara passando por eles e sentando-se à mesa – O que estão esperando? Eu to com fome!

Os meninos correram para a mesa deixando um fazendeiro resmungando na porta sobre sua comida não feder.

Fabian riu dele e Laércio revirou os olhos, mas depois piscou para ele indo sentar-se à mesa com a família ruidosa.

— Tome café Fabian – disse Laércio para o rapaz – Obrigado, mas tomei em casa.

— Então senta ai e bebe algo.

Ele balançou a cabeça e pegou uma xícara de chocolate quente sentando em uma das cadeiras da mesa olhando para Gabriel que agora estava em seu colo.

— Agora eu quero saber o que cada um vai fazer – disse Laércio olhando serio para os filhos.

— Eu tenho que cuidar do meu jardim – disse Jon mordendo um waffle cheio de manteiga e mel.

— Eu vou cavalgar – franziu as sobrancelhas para a cara amarrada do pai – A qual é pai! Só fico na fazenda! Vou eu e a Isabela.

— Eu espero que as duas tenham juízo!

— Será que podemos andar por ai? – perguntou Samara toda sorrisos para o pai.

— Você esta confinada em casa até segunda ordem, entendeu Samara?

A menina fez um grande bico cruzando os braços, mas Laércio foi irredutível. A filha tinha que aprender que seus atos tem conseqüências.      

— Eu quero ficar com o Fabian – disse Kauan segurando a mão do rapaz olhando quase temeroso para Laércio.

— Podemos ir ver Quico depois, o que acha? – Fabian perguntou com carinho para o menino que teve o rostinho triste iluminado por um sorriso.

— Bem eu tenho que ir ver a fazenda, mas todo mundo tem que obedecer o Fabian e estou falando sério! Chega de estripulias por ai ou cada um vai acabar parando em algum acampamento de férias.

Fabian notou a cara de horror das crianças e percebeu que esse acampamento devia ser terrível.

Ele beijou cada um dos filhos antes de sair e acenou para Fabian. Rumou para a caminhoneta quatro por quatro preta e dirigiu-se para uma parte da propriedade onde as maquinas cortavam eucaliptos para uma fabrica de papel.

Parou para conversar com o encarregado e viu que estava tudo certo e que ia receber o relatório por e-mail. Satisfeito foi para uma parte da propriedade em que cerca de vinte pessoas trabalhavam no reflorestamento de uma área onde havia cerca de cinco nascentes.

— Bom dia seu Laércio! – disse Marquinhos.

Era um homem baixo e um pouco gordo com uma careca que já se fazia presente. Morava na fazenda e era o encarregado dos trabalhadores que reflorestavam a área para que as nascentes não secassem.

— Olha quem veio fazer uma visita! – ele apontou para uma moça que conversava com alguns trabalhadores e tinha uma muda de embaúba na mão.

Era Miriam Siqueira, engenheira florestal que prestava serviços para Laércio no reflorestamento da propriedade.

Miriam era de estatura mediana, cabelos longos, castanhos e encaracolados que ela mantinha sempre presos em um rabo de cavalo. Seu corpo era curvilíneo, talvez um pouco acima do peso o que não tirava a sua beleza, principalmente dos rosto em forma de coração com olhos de um verde claro que chamava a atenção por onde fosse.

— Oi Miriam! – ele acenou para ela ao descer da caminhoneta – Não esperava ver você aqui.

— Estive prestando serviços para a fazenda Sagarana e resolvi dar uma passada por aqui – ela olhou em volta – Laércio está ficando lindo.

— É.

Olharam para as árvores que já tinham um metro e meio perto das nascentes que ficavam em um rebaixamento do terreno. À direita e esquerda haviam grandes campos selvagens que já pareciam estar virando um cerrado.

— É incrível como as matas se alternam em Altinópolis – disse a moça – Se vermos de um lado temos uma mata de transição muito parecida com a Mata Atlântica, mas do outro um terreno arenoso e uma vegetação típica de cerrado.

— Meu avô costumava chamar a minha atenção para isso e eu adorava ver quantas nuances há nessa fazenda e nas terras da região.

— Vi que os seus eucaliptos estão sendo cortados.

— Já estão no ponto e está um bom período para a venda da madeira, se bem que boa parte desta vai para a minha fabrica de papel.

Enquanto olhavam o trabalho dos empregados os dois começaram uma conversa sobre a bolsa de valores e mercados internacionais.

Laércio gostava de conversar com Miriam. Ela tinha uma boa conversa, era culta e educada.

Subiram uma elevação do terreno onde Laércio mostrou para ela onde pretendia estender a sua plantação de eucaliptos e ela disse que voltaria no outro dia para tirar amostras do solo e ver a viabilidade da plantação.

— Você já esta voltando para Ribeirão? – perguntou ele ao acompanhá-la até a pampa que dirigia.

— Bem acho que vou até Batatais para almoçar e depois de lá volto para casa.

— Ora não seja boba – Laércio deu seu melhor sorriso para ela – Vamos lá em casa almoçar.

— Laércio sem avisar...

— Olha os meus filhos tem um novo babá que é bom cozinheiro.

— UM babá? – ele riu.

— Acabei as minhas possibilidades com as mulheres e duvido que alguma queira vir para cá depois do que meus filhos fizeram.

— Eu gosto de suas crianças e acho que estão exagerando.

— Eu sou pai deles Miriam e os amo, mas sei do que são capazes quando querem. E ai? Almoço?

— Tudo bem, mas se aceitar um convite.

Laércio encostou o quadril na pampa e lançou seu melhor olhar sedutor para ela.

— Você já está me convidando para encontros sórdidos? Que coisa feia Miriam!

— Você e sua mente suja! – disse ela franzindo as sobrancelhas para ele – Eu estou precisando de um par para o casamento de minha irmã e é cheio daquelas frescuras der se ir de longo e terno e os amigos que tenho não são muito dessa praia.

— Ai você pensou em mim?

— Bem eu já vi você de terno e fica um arrasa quarteirão. Que acha?

— Bem eu não tenho nada para fazer no sábado e vou gostar de sair um pouco agora que, espero, achei alguém para cuidar das crianças.

— Agora que vou com você estou animada. Ficar horas em meio a minha família ouvindo o quanto eu era magrinha adolescente é mais do que eu possa suportar.

— Não se preocupe – Laércio riu – Vamos botar para quebrar sábado. Agora ponha essa coisa que você chama de carro para anda e vamos comer!

~~***~~

Fabian estava um pouco preocupado em cuidar de quatro crianças, cinco de incluir Gabriel, mas descobriu que eles não eram a encarnação de diabo como ouvira.

Samara, de tromba seguira ele por todo lado, Kauan estava na mesa da cozinha com um caderno de desenho falando sem parar com o bebê que ria dele. Jon se enfurnou no jardim e ficou lá até que Fabian gritasse para ele usar o filtro solar e Regina voltou da sua cavalgada vermelha e suada, mas risonha. Ela trouxera Isabela para lhe apresentar.

Ele admirou a beleza da moça com seus longos cabelos cacheados caindo pelas costas, à pele cor de chocolate e os olhos castanhos brilhantes. A moça foi logo embora dizendo ajudar o pai.

Fabian tinha terminado de colocar a carne assada em cima do fogão quando gritos na sala chamou a sua atenção e ele correu para lá.

— Se esse projeto de cachorro chegar perto da minha gata de novo eu arranco as bolas dele! – Regina gritava para um vermelho Jon que segurava o pastor alemão que se contorcia em seus braços.

De cima da cristaleira a gata Sekmet bufava para o cão que por fim se libertou das mãos de Jon e pulou no móvel.

O armário balançou perigosamente fazendo o estomago de Fabian embrulhar, mas ele não caiu e a gata pulou dele para cima da estante e de lá para o sofá, tudo isso sendo seguida por um cachorro que deslizava e derrubava tudo que tinha pela frente.

— Regina, Jon! – Fabian disse contrariado para os dois – Mandem eles pararem de destruir a sala!

Todavia ele não devia ter falado nada, Anúbis ao ouvir a sua voz deixou a gata com uma rapidez impressionante e com a velocidade de um caça supersônico correu para Fabian e pulou com tudo no outro o jogando no chão e pisando em cima dele e começando a deixá-lo todo babado.

— Anúbis! – Jon gritou para o cachorro que largou Fabian e correu para o dono que desviou a tempo de seu ataque, mas o bicho simplesmente mudou de rota e voou para a gata que se esfregava em Kauan que tentava proteger a cesta onde Gabriel, que não entendia nada, ria de todo o barulho.

— Mãe de Deus! – Fabian tentou levantar e correr para o filho, mesmo sabendo que não ia dar tempo.

— Anúbis pega! – gritou Jon apontando para Regina que o olhou horrorizada.

Mas deu certo. O cachorro mudou de lado deixando a gata e indo com tudo para a moça que correu para a porta da sala tentando se livrar dele e conseguiu desviar bem a tempo de Laércio abrir a porta e levar o peso do cachorro to em cima dele e ir ao chão.

— JONANTAN!

— Crianças! – resmungava Samara detrás de um exemplar de um mangá.

domingo, 3 de março de 2013

A Busca da Felicidade - Capitulo 11

Gilberto


Capitulo 11


Assim que entrou na caminhoneta de Wagner Mauro deitou a cabeça no banco de trás fechando os olhos. Mesmo tendo dormido algumas horas seu corpo pesava e isso era reflexo dos analgésicos que estava tomando. Antes mesmo que saísse de casa ele estava dormindo.

— Estou preocupada Wagner – Sacha olhou para o marido – Acha que ele vai ficar bem? Olha como está pálido e como emagreceu! Como eu não notei isso?

— Ele estava querendo se afastar um pouco Sacha – Wagner apertou levemente a cocha da esposa – Demos a ele um tempo, mas acho que isso fez mais mal que bem.

— Às vezes eu acho que devia ter enfrentado o pai dele e o tirado de la.

— Acha que ia conseguir?

Sacha olhou contrariada para o marido.

— Sabe que não ia Sacha e não me olhe assim!

— Droga eu me sinto perdida Wagner! Ele sofre e eu não sei o que fazer!

— O que já está fazendo meu amor, sendo a mãe dele.

Eles percorreram o resto do caminho em silêncio. Chegaram à fazenda por volta das dez da manhã com a fazenda em plena atividade, mas Dalton foi receber eles na porta da casa onde Wagner parou.

— Como ele está? – perguntou o rapaz preocupada olhando para o outro que dormia.

— O médico disse que ele está bem – disse Sacha sorrindo para o filho – Mas precisa de repouso. Os analgésicos estão fazendo dormir bastante – ela abriu a porta e balançou levemente o ombro do filho – Vamos dorminhoco, hora de acordar.

Mauro piscou meio desorientado, mas sorriu para a mãe e para Dalton que tinha os olhos preocupados nele.

— Que bom estar em casa – disse ele.

— Você tem que parar de me assustar – disse Dalton ajudando ele a sair e o abraçando e dando um beijo em seu rosto – Que bom que está bem.

— Vamos entrar garotos – disse Wagner – Mauro precisa de descanso.

Eles foram para dentro de casa e Duda os esperava.

Ele também o abraçou dizendo que ele precisava era de boa comida. Não teve coragem de dizer a ela que a mera menção de comida deixava seu estômago revirado. Mas Sacha percebeu algo e pediu para ela trazer um chá de camomila e erva-cidreira para acalmar o estômago dele e levasse para o quarto.

Sacha o levou até o quarto que tinha ficado quando machucara o ombro.

— Tem roupas suas no armário – disse sua mãe – Que tal um banho?

— Eu adoraria – disse o rapaz sorrindo cansado para ele.

— Então tome seu banho e eu trago o chá. Não quer mesmo comer nada?

— Desculpe mãe, mas acho que vomitaria tudo.

— Isso vai passar – disse ela com carinho acariciando seus cabelos.

Quando ela saiu, Mauro pegou seu pijama e entrou no banheiro. Enquanto a água corria por seu corpo ele pensava no que acontecera a noite, no fato de Valentim tê-lo ajudado e no que teria acontecido se ele não estivesse lá.

Ele deu um suspiro ao ver que teria que agradecer ao outro, mas estava cansado demais para continuar pensando nisso.

Terminou o banho e vestiu o pijama se jogando na cama, feliz por estar em casa e não no hospital.

Olhou em cima do criado mudo seu livro e seu notebook novo, mas que tinha medo até mesmo de tocar depois do que vira. Não tivera ainda tempo para pensar se ia contar para eles sobre o que vira nos e-mails, mas achou que era algo seu. O que sua mãe podia fazer? Ela ia acabar indo ver seu pai e ai a porcaria estava feita, não, era melhor ele ficar de boca calada.

Sacha apareceu com o chá morno e ele o tomou com cuidado para não vomitar e logo estava caindo de sono. Sua mãe o cobriu dando um beijo em seu rosto e fechou as cortinas para que o sol não o incomodasse.

Ela deixou a porta do quarto entreaberta e desceu para a sala e foi para a cozinha ajudar Duda com o almoço com o coração mais leve por ter o filho em casa.

~~***~~

Valentim deu rédeas para que o garanhão que estava montando galopasse com vontade pelo campo. Era um belo espécie malhado de castanho e branco e bastante fogoso. Era necessário um pulso firme para controlá-lo e Valentim conseguia fazer isso sem ser cruel, ele amava os animais.

Olhou para as maquinas que estavam plantando na parte sul da fazenda. Eram grandes campos de feijão e canola que iam cobrir toda aquela região que haviam adquirido há cerca de dois meses.

Fora um bom investimento, mesmo que caro. Terra naquela parte do país sempre era muito cara.

Ele descansou o braço em cima da sela wester que usava e pensou no que acontecera na noite com Mauro. Ele não era uma pessoa de ficar remoendo coisas, ele não tinha tempo e nem paciência par isso, as coisas aconteciam e fim, para que gastar energia com o que já foi? Mas ele não conseguia esquecer o quanto ficara preocupado com Mauro e o quando aquilo era culpa dele.

Sabia que dera um tempo ruim ao rapaz com as suas chantagens, ele tinha que se desculpar com ele, fora um idiota, sabia disso. 

Vendo que as maquinas estavam com a força toda ele voltou para a sede com o cavalo. Desceu dele e puxou as rédeas para estrebaria e viu que Kaila estava conversando com um rapaz alto, corpo magro, mas com músculos definidos. Os cabelos negros eram curtos e ele o olhou com grandes olhos castanhos.

— Ei Valentim! Esse é o Gilberto, o novo empregado que lhe falei.

Valentim estivera tão absorto nos problemas pessoais e da fazenda que esquecera que Kaila ia contratar alguém em definitivo para ficar cuidando dos cavalos.

— Ola Gilberto – disse ele formal para o outro que não devia ser muito mais velho que ele.

— Ola senhor Valentim – disse ele educado, mas havia algo nos olhos dele que deixou o rapaz um pouco incomodado.

— Finalmente você vai parar de me atormentar com o fato de cuidar dos meus cavalos!

— Eu não reclamo de cuidar dos cavalos Kaila, mas isso é serviço seu!

— Bem, agora é do Gil também!

Valentim bufou e se virou para o outro.

— Quando quer começar?

— Agora?

— Ótimo – ele estendeu as rédeas do cavalo – Mostre tudo direito para ele Kaila.

— Era o que eu estava fazendo intrometido – disse ela colocando as mãos na cintura.

Valentim balançou a cabeça indo ruma a casa para partir rumo às contas da fazenda. O fim do mês estava chegando e ele gostava de ter tudo certo para os pagamentos.

Entrou na casa que estava vazia, mas logo ele ouviu as vozes de sua mãe e Duda na cozinha. Subiu as escadas para buscar sua agenda no seu quarto onde as esquecera e quando estava voltando para o corredor escutou alguns murmúrios e intrigado viu que vinha do quarto de Mauro.

Preocupado ele afastou a porta entreaberta para perceber que ele estava gemendo e apertando as cobertas em meio a um pesadelo.

Ele ficou ali sem saber o que fazer, mas acabou entrando e tocou no ombro do outro tentando tirá-lo do pesadelo.

Mauro acordou assustado e sentou rápido na cama olhando para os olhos preocupados de Valentim.

— Tudo bem? – perguntou o outro vendo Mauro passar a mão pela testa suada.

— Foi só um sonho ruim – disse ele sem encarar o outro.

— Mauro eu queria me desculpar por tudo que fiz com você. Sei que desculpas não acertam as coisas, mas...

— Não acertam, mas ajudam. Eu só acho que não é o momento de conversarmos sobre isso. Estou cheio de raiva e perdido e vou acabar descontando em você.

— Fale Mauro, eu vou ti ouvir.

— Valentim, por favor – ele balançou a cabeça.

— Se você guardar com você o veneno que tem dentro de si vai ser pior.

— Pior? – havia amargura na voz do outro – O que pode ser pior que se sentir sozinho e sem rumo? Saber que seu pai ti odeia? Sei que ele nunca foi uma pessoa amorosa, mas era meu pai e os filhos não querem que os seus pais sejam os vilões das histórias. Eles deviam ser sempre os heróis.

— É sempre, mas não acontece isso e temos que aprender a conviver com a ideia de que nossos pais são humanos e como cada ser humano está sempre naquele limite entre o bem e o mal.

— Eu não sei o que pensar. Acho que aquilo que me aconteceu há semanas está me pegando agora.

— Mas você não está sozinho Mauro. Sacha ama você.

— Eu sei, mas eu não conheço ela e nem um de vocês e acabei por manter distância com medo de que me mandassem embora também. Acho que o que meu pai me fez acabou por me deixar uma marca – ele colocou a mão em cima do coração com lagrimas nos olhos que ele tentava impedir a todo custo de cair, mas estava com o corpo frágil demais e com a mente presa em um grande turbilhão para resistir e as lagrimas começaram a escorrer por seu rosto.

A próxima coisa que percebeu era que estava apertado em um peito amplo, coberto por uma camisa xadrez com cheiro de mato, couro, um perfuma daquela terra que o inebriava.

— Calma – sussurrava Valentim para ele enquanto acariciava suas costas com um carinho que Mauro não julgava possível no taciturno rapaz.

Depois de alguns minutos ele conseguiu se contar e afastou-se do outro vermelho de vergonha por sua fraqueza.

— Desculpe – murmurou ele com a voz rouca.

— Não se desculpe por chorar – disse Valentim – Isso é algo de todos nós. Se sente melhor?

— Um pouco – ele sorriu olhando para Valentim – Ainda quero lhe dar uns tapas, mas tudo bem.

Valentim riu também tentando dissipar o momento constrangedor deles.

— Bem eu preciso voltar para as minhas contas. Precisa de algo?

— Obrigado, mas vou tomar um banho e descer. Finalmente estou com fome.

— A gente se vê depois então.

Mauro caiu nos travesseiros ainda com a imagem de seu pai atirando nele.

Pudera sentir a bala penetrando na sua carne e a dor que vinha disso. Gemeu colocando o travesseiro na cara, mas logo a imagem de seu pai foi empurrada para o lado e a imagem de um Valentim atencioso e educado chegou até.

Será que ele era assim ou estava aprontando algo? Ele ainda podia querer avisar o seu pai?

Cheio de raiva ele gritou para o travesseiro e resolveu ir para o banho.

~~***~~

Dalton foi até a cidade para comprar mantimentos e buscar algumas ferramentas novas em uma loja.

Ao chegar ao supermercado que ficava em uma rua movimentada ele pegou um carrinho e pôs-se a percorrer as prateleiras. Não era um serviço que ele gostasse, mas normalmente era o único com tempo para fazer.

Estava tendo uma crise de criatividade e quando isso acontecia ele simplesmente achava que ia explodir. Como uma forma de se ocupar saia pelas estradas sem pensar em nada, normalmente ele voltava bem, mas estava um tanto estressado naquele dia e quando olhava para um pedaço de madeira, era só o que via um pedaço de madeira.

Frustrado como nunca ele não prestou atenção e acabou batendo em outro carrinho. Pediu desculpas automaticamente, mas ao ver quem era ficou cheio de raiva.

— Cidade pequena é uma merda mesmo – resmungou Dayno com desdém – A gente vive se esbarrando com os piores tipos.

— Infelizmente você tem razão, afinal é um exemplo disso.

— Olha aqui...

— Porque não vai catar coquinhos por ai Dayno? – Dalton manobrou o carrinho para continuar andando – Eu não tenho tanto tempo a perder como você.

— O que diabos você quer dizer com isso, roceiro?

— E você é quem? O grande astro da cidade grande?

— Eu não tenho paciência para lidar com gente como você!

— Muito bem, eu também não! Me faz mal falar com um idiota sem educação e preconceituoso.

— Desde quando você sabe algo da minha vida? – ele se aproximou com o rosto quase encostado no de Dayno.

— Eu não sei e não quero saber nada!

Como foi que aquilo aconteceu depois? Por muito tempo Dalton se perguntava como eles haviam começado o beijo, mas não havia lembrança. O que ele notou era que gostava dos lábios de Dayno, quentes, duros, exigentes. Com a outra mão ele puxou Dalton pela cintura para que ele sentisse a ereção dura de Dayno e isso o assustou. Seu um empurrão em Dayno que se desequilibrou e caiu por cima de uma grande pilha de latas de ervilha fazendo essas desmoronar com um estrondo.

— Senhores! – o gerente do mercado chegou correndo ao ver pasmo tudo no chão – Está tudo bem?

— Eu vou ti matar! – gritou para Dalton do chão, o rapaz tentara não rir, mas agora não resistia e se contorcia perto do carrinho.

— Bem – o gerente colocou as mãos na cintura – Se estão bem, então podem arrumar a bagunça que fizeram.

— O que? – Dalton balançou a cabeça – Foi ele quem derrubou!

— Você me empurrou em primeiro lugar!

— Os dois! – o gerente disse a palavra final e deu as costas para eles.

— Por essa você me paga! – disse Dayno em um rosnado para ele.

— Estou tremendo de medo, Dr. Dayno.

O advogado teve que se segurar e não torcer o pescoço daquele idiota. Como, em nome de Deus, ele havia achado que Dalton era um rapaz bonito e doce. Devia ter batido a cabeça para beijá-lo daquele modo.

Olhou para as lates que haviam voado para todo lado percebendo que ia gastar parte do dia naquilo.  

— Eu devo ter atirado pedra na cruz mesmo – resmungou ele.

— Ande logo – disse Dalton perto dele pegando as latas – Quanto mais você resmungar, mais tempo vai demorar.

Com uma veia pulsando na testa de raiva ele começou a pegar as latas e imaginar modos de matar Dalton.