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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A Busca da Felicidade - Capitulo II

                                                                         DALTON




Capitulo II



Mauro não sabia o que estava acontecendo. Sua cabeça estava uma bagunça, mas ele se lembrava do pai com uma arma atrás dele. Todavia o que ele estava fazendo ali? Em meio aquelas pessoas estranhas e com a sua mãe em meio a elas. A moça perto dele havia chamado de mãe, então ela havia continuado em frente, tinha uma família enquanto ele vivia com um pai abusivo.

— Mãe? – Kaila arregalou os olhos – Ele é...

— Mauro o que você está fazendo aqui? – ela se aproximou e o rapaz sentou no sofá não sabendo se suas pernas bambas conseguiriam sustentar seu peso.

Sacha tentou tocar o seu rosto, mas ele se esquivou. A mulher tremeu e olhou para o marido com a mão no peito.

Sua mãe tinha envelhecido pouco pela velha foto que ele tinha escondido em casa. Ela continuava com os mesmos cabelos cor de mel longos, os olhos azuis escuros muito parecidos com os seus, o rosto quase sem rugas, o corpo magro e bem formado alem de ser do seu tamanho, com um metros e sessenta e oito.

De todos os lugares do mundo como ele fora parar ali? Justamente ali? Onde sua mãe vivia! Parecia tão irreal que sua cabeça doeu com mais intensidade.

— Como é que você entrou no meu caminhão? – perguntou Dalton chegando perto dele.

— Pessoal o menino está confuso – disse Wagner tentando apaziguar as coisas, mas ele mesmo estava pasmo ao saber que aquele era o filho de suas esposa – Tenham um pouco de calma.

— Parece que você foi espancado – disse Kaila colocando as mãos na cintura – Em que tipo de briga você se meteu? Sabia que devia aprender um pouco de auto defesa para não ficar todo estropiado assim?

— Kaila! – Wagner às vezes tinha vontade de dar uns tapas na filha por causa de sua boca grande.

— Onde... onde eu to?

— Fazenda 3M no município de Mendes, Paraná – Valentim estava perto da uma das grandes janelas olhando desconfiado para o rapaz – Você se diz filho da nossa mãe...

— Valentim – Sacha olhou para o mais velho com carinho – Esse é o Mauro, eu falei dele.

— Um filho desnaturado que nunca veio ver a mãe.

— Que? – o rosto de Mauro ficou vermelho se sobrepondo à palidez – Você não tem direito de falar assim comigo!

— Você está na minha casa e tenho todo o direito.

Mauro se levantou bruscamente cheio de raiva, mas o chão ondulou sobre os seus pés e ele caiu de volta ao sofá nauseado.

— Valentim agora não é hora para discussões – disse Wagner contrariado – Deixe Mauro se recuperar para poder nos contar o que aconteceu.

— E vocês vão acreditar nele? Todos aqui sabem o que a mãe passou por causa desse pedaço de merda!

— Cale a boca! – Mauro gritou – Você e sua família não sabem nada da minha vida! E pode ficar sossegado eu não vou tirar a mãe de vocês, nem mesmo a conheço; estou aqui por acaso e vou embora.

— Você não a conhece porque não quis!

— Valentim chega! – o pai teve que gritar algo que odiava fazer com seus filhos – Por favor, meu filho chega de brigas em casa.

— Mauro você está ferido e precisa de ajuda – disse Sacha sentando perto dele – Seu pai sabe onde está? Precisa falar com ele?

— Não! – ele pulou em pé e conseguiu se equilibrar sem cair – Meu pai não sabe nada e não precisa saber. Eu estou indo embora!

— Já vai tarde – rosnou Valentim do seu posto junto à janela e com os braços cruzados.

— Podemos ajudar você – disse Dalton com a sua voz calma – Precisa de um médico.

— Não – ele foi indo em direção à porta.

— Mauro por favor – Sacha foi até ele e segurou seu braço mesmo ele tentando se esquivar – Por favor, fique aqui e me conte o que esta acontecendo. Foi o seu pai? – ela tocou em um dos seus hematomas na testa.

Mauro estava cheio de raiva e sendo irracional, mas ele só queria ficar longe da família perfeita da sua mãe, ver aquilo doía demais.

Ele puxou o braço e saiu.

Wagner foi até a esposa e a abraçou pelos ombros.

— Não podemos prendê-lo aqui Sacha. Ele é um homem adulto.

— Adulto? Olhe para ele! É apenas uma criança sozinha. Preciso falar com o pai dele.

— E se foi o pai dele quem o machucou? Precisamos saber antes.

— Vou falar com ele – disse Dalton que de todos era o mais calmo.

O rapaz saiu para o dia claro e viu o outro indo até a estrada com passos trôpegos.

— Teimoso – ele sorriu lembrando-se da mãe que conseguia levar o pai à loucura quando queria algo.

Ele correu para a estrada caminhando ao lado dele.

— O que você quer? – resmungou o outro.

— Olha Mauro sei que deve estar confuso e magoado pelas palavras de Valentim, mas ele está apenas pensando na nossa mãe, na verdade madrasta, mas eu não consigo chamar ela assim. Ela é a minha mãe do coração assim como é para Valentim, a Kaila e o Bruno. Sacha casou com meu pai há oito anos e minha mãe tinha morrido no parto do Bruno. Sentíamos muito a falta de alguém e meu pai estava virando um solitário até que encontrou-a trabalhando em um boteco de parada de caminhões não muito longe daqui. Meu pai disse que foi amor à primeira vista e no mesmo dia ele a trouxe para casa. Caímos de amor por ela, mas era uma mulher desconfiada e demorou para nos mostrar afeição. Pelo que soubemos o marido a expulsou de casa e o filho se recusava a falar com ela...

— Como é?! – Mauro olhou contrariado para ele – Eu nunca soube que ela tentasse falar comigo! Um dia acordei e ela tinha ido embora. Meu pai ficou louco quebrou a casa, queimou as fotos e... a verdade é que ela simplesmente desapareceu e eu nunca mais ouvi falar dela.

— Essa foi à história que seu pai contou Mauro? Você acredita mais nele?

Mauro torceu os lábios mordendo as bochechas por dentro. Dalton estava certo. Seu pai nunca fora de confiança, mas porque ela nunca ligara?

— Volte comigo e saiba da versão da sua mãe Mauro.

— Acho melhor não. Seu irmão demonstrou com todas as letras o que acha de mim e eu não quero ser motivo de uma briga de família.

— Valentim está assim só porque sabe de uma versão assim como você. Venha – ele segurou a sua mão – Você precisa de cuidados e uma coisa quente para comer.

Mauro foi levado mansamente por Dalton. Ele queria saber a verdade, mas também a possibilidade de viver na rua e a fome falaram mais alto que seu orgulho.

Voltaram para a casa onde sua mãe estava chorando junto ao marido e quando o viu correu e o abraçou. Ele não a afastou, mas não retribuiu o aperto, Valentim o olhava com um desprezo mudo nos olhos.

— Por favor meu filho, me deixe explicar.

Mauro sentou em uma poltrona torcendo as mãos.

— Mauro seu pai sempre foi um homem violento – ele iniciou sorrindo para ele com os rosto molhado de lagrimas – Eu estava ficando cansada dele me bater e das humilhações e entrei com o processo de divórcio. Ele ficou louco de raiva e achei que ia me matar. Covarde eu fugi no meio da noite achando que votaria para ti buscar, mas isso não aconteceu. Seu pai mandou a policia atrás de mim dizendo que eu o roubara, mas era uma acusação fraca, todavia fiquei presa por seis meses e depois tentei falar com você. Fui até a sua escola já que tinha medo de ir até a casa. A diretora disse que foi falar com você e que você não queria me ver e que me mandou morrer – Mauro tentou falar, mas ela balançou a cabeça – Deixe eu terminar meu amor. Ouvir aquilo foi a maior dor da minha vida. Fiquei sem rumo por algum tempo e quando dei por mim estava em um velho bar tentando sobreviver, foi onde conheci Wagner – ela olhou para o marido que lhe deu um cálido sorriso – E ele me deu uma linda família. Todavia eu tinha esperanças de que você ainda quisesse me ver. Tentei ligar, mas o telefone estava desligado e mandei cartas todos os meses, durantes três anos. Um dia todas elas voltaram fechadas e alguém que se identificou como você escrevia que não era para mim mandar mais nada, já que ele não tinha mais mãe e que eu era uma desconhecida.

— Eu nunca soube de nada disso – disse Mauro tremulo e cheio de raiva por seu pai.

— Como podemos saber se isso é verdade? – Valentim voltou ao ataque – Ele pode estar aqui para aplicar um golpe a mando do pai dele. Eu não acredito em coincidências e duvido que fosse o acaso que o trouxe aqui.

— Você não tem que acreditar nas minhas palavras – retrucou Mauro levantando – Mas eu não tinha a mínima ideia de quem era o caminhão quando me escondi nele.

— Se escondeu? – Wagner o olhou – O que aconteceu com você Mauro?

Mauro não respondeu. Como ele podia? Como contaria para a sua mãe e todos a sua volta que fora caçado por seu pai ao dizer que era gay? Seria jogado na rua novamente.

— Quando você estiver pronto vai nos contar – disse Sacha – Agora você precisa de um banho e algo para comer.

— Ele não pode ficar aqui! – agora Valentim estava quase gritando – Não estão vendo que é o mesmo que trazer uma cobra para dentro de casa?

Mauro estava cansado das acusações e das brigas, mas parecia que elas o perseguiam sem trégua. Sua cabeça latejava e ele não tinha como pensar no seu futuro já que não via uma luz nele.

— Valentim você não é de acusar as pessoas sem prova – disse Dalton contrariado – Acha mesmo que podemos deixar ele na rua? Sem casa?

Dalton não era de ficar dando lição de moral em sua família, ele preferia ficar quieto, mas ele não podia aceitar que o irmão mais velho achasse que era melhor deixar o garoto entregue à sua sorte, isso seria cruel.

Valentim saiu intempestivamente.

— Isso passa – disse Sacha para Mauro – Ele é uma boa pessoa.

— Vem comigo – disse Dalton sorrindo para ele e o levando para o andar de cima.

O quarto de Dalton era cheio de esculturas de madeira e argila, quadros nas paredes, um velho tapete de lã no chão, uma cama de casal com uma colcha de retalhos, um guarda-roupa de madeira vermelha, uma mesa perto da janela onde haviam mais esculturas sem terminar e uma poltrona de couro.

— Desculpa a baderna – disse o outro sorrindo.

Mauro segurou uma escultura admirando a beleza de peça. Eram na sua maioria de animais, mas haviam também de seres humanos. Uma de argila mostrava um homem nu deitado com a mão no peito e olhar sedutor.

— São lindas.

— Obrigado – Dalton abriu o armário – Olha sou maior que você, mas acho que encontro um moletom.

Ele lhe estendeu uma calça de moletom marrom, uma camiseta branca e uma cueca boxer e apontou para uma porta que ele não tinha reparado.

— Ali é o banheiro, pode ficar a vontade.

— Mais uma vez obrigado Dalton por sua gentileza.

Ele entrou no banheiro pequeno, mas bem montado. As paredes eram azuis forradas de pastilhas, as peças do banheiro eram pretas, mas a pedra de mármore da pia eram claros e o armário debaixo desta, branco.  

Lentamente e sentindo dores por todo o lado ele se despiu e entrou no jato quente do chuveiro.

Sua cabeça voltou a latejar e ele procurou não pensar na confusão que era agora a sua vida. Não tinha uma peça de roupa ou um documento. Ia precisar de um emprego e um lugar para morar, talvez uma pensão.

Terminou logo o banho e se vestiu colocando a roupa suja no cesto e foi para o quarto onde Dalton trabalhava com uma afiada faca terminando sua escultura.

— Melhor?

— Melhor, mas parece que um caminhão passou por cima de mim – ele deu um sorriso fraco sentando na cama.

— Porque não deita um pouco? Depois trago algo para você comer.

Mauro pensou em recusar, mas seu corpo clamava pela cama macia e mesmo constrangido por deitar em uma cama que não era a sua ele se esticou em cima do edredom de apagou.

Dalton deu um sorriso de pegou uma manta colocando em cima do menino.

— Parece que você tem uma longa estrada irmãozinho – ele fez um carinho nos cabelos dele e resolveu descer.

Na sala todos tomavam café menos Valentim.

— Cadê Mauro Dalton? – perguntou sua mãe preocupada.

— Capotou na cama. Deixei-o dormindo já que ele parecia mais cansado que com fome. Assim que ele acordar trago ele para comer algo – olhou em volta – Cadê a vovó Lucia.

— Na casa da Maria Betânia – disse Godofredo que não estava presente na cena, mas Kaila já fofocara tudo para o tio – Cada coisa que a gente não vê todo dia. O menino entrou no caminhão logo do enteado de mãe desaparecida. Ah! Isso daria um bom roteiro e bem meloso para a novela das sete.

— Isso não é brincadeira Godofredo – disse Sacha contrariada para o cunhado – Mauro está fugindo do pai, tenho certeza disso. Luis Gustavo costumava me deixar com os mesmos machucados.

— Deveríamos ter ido vê-lo há mais tempo – resmungou Wagner – Tudo isso acabou virando um monte de mal entendidos.

— Não tínhamos como saber – disse Kaila que preferiu não fazer brincadeiras ao ver a mãe tão arrasada – Mas gente o Bruno ta com uma vida mansa demais. Cadê ele?

— Dormindo Kaila e deixe seu irmão em paz! – disse Sacha olhando feio para a filha – Ele ficou até tarde ajudando Valentim com o veterinário no parto de uma das suas éguas.

— Eu não posso ver aquilo – a moça fez cara de nojo – Eu tenho vontade de vomitar.

Durante algum tempo a família continuou a discutir sobre o que tinha acontecido e nesse meio tempo Mauro acordou de um pesadelo com um sobressalto e sentou na cama ofegante e tremulo.

— Acho que temos que conversar.

O coração de Mauro pulou ao ver Valentim parado perto da cama com cara de poucos amigos.  

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A Busca da Felicidade - Capitulo I

Ola pessoas! Nova história e espero que gostem. Todo começo é meio lento, mas prometo grandes emoções. Beijos!

Resumo


Mauro foi expulso de casa por um pai homofóbico e perigoso. Em meio a sua fuga ele vai parar dentro do caminhão de Dalton, um artista que mora no Paraná e qual não é sua surpresa ao descobrir que ele é enteado de sua mãe que o abandonou quando era criança. Agora cheio de mágoa ele precisa aprender a conviver com a sua nova família, mas Valentim não está disposto a deixar isso acontecer. Ele não gosta do rapaz e vai fazer de tudo para que ele vá embora e em meio a tudo isso uma ameaça chega a cidade e esta disposta a caçar Mauro.


Vamos ao capitulo I



Capitulo I



Era duro ficar ouvindo a ladainha do seu pai sobre o quanto a homossexualidade era um câncer que devia ser extirpado, que tudo isso não passava de um punhado de gente sem vergonha e por ai ia. Ele estava cansado de esconder do pai o que ele realmente era por medo, pois sabia que seu pai era líder da Frente Conservadora, um nome idiota para algo mais idiota ainda. Seu pai e os partidários dele procuravam um modo de livrar a cidade de gays, lésbicas, travestis e recentemente alguns estrangeiros que estavam chegando, os novos ricos que compravam terras na pacata cidade de Aurora no norte do estado de São Paulo.

— Deus estou ficando cansado de mostrar para o povo o quanto isso esta comprometendo o bom nome da nossa cidade por causa desses anormais...

Mauro olhou pela janela para o jardim lá fora onde uma suava brisa trazia o cheiro das roseiras. Sempre que se cansava de ouvir o pai ele deixava sua mente vagar.

— Você está me ouvindo Mauro? – gritou Luiz Gustavo com o rosto vermelho.

— Estou pai e estou cheio disso.

— O que? – seu pai parecia não acreditar no que seu submisso filho estava falando.

— Você ouviu – disse ele com a frieza que conseguia – Cansei de você falar bobagens o tempo todo. Fica ai acusando as pessoas diferentes, mas no fim você queria ser como elas, livre das amarras dessa sua vida pobre.

— Você está drogado ou o que? Quem pensa que é para me falar assim?

— Meu nome é Mauro caso tenha esquecido no meio do seu discurso preconceituoso e tacanho.

— Acho bom você calar a boca e ir para o seu quarto – Luiz parecia que ia ter uma AVC ali mesmo tal a vermelhidão do seu rosto.

— Não – durante dez anos Mauro ficou calado aceitando tudo o que seu pai fazia com ele e com as pessoas, mas foi como se uma represa muito cheia rompesse dentro dele; havia chegado ao ponto da saturação.

— Suma daqui Mauro! – Luis Gustavo rosnou com os dentes cerrados.

— Pai olhe pra mim e tire a cabeça da areia finalmente! Seu único filho é gay e você fica ai fingindo ser o cara mais puro do mundo.

Luiz Gustavo engasgou, seu olhos cresceram e ele levantou do sofá apontando o dedo tremulo para o rapaz de dezenove anos. Sua boca estava aberta e nem um som saia dela.

Mauro quase riu ao ver a cena, mas sabia que seu pai podia ser violento quando queria. Ex soldado, servira à ONU no Iraque com as forças de paz por muito tempo antes de voltar ao Brasil e assumir a fortuna do falecido pai. Ele era alto, mais que um metro de noventa, cem quilos de músculos, cabelos loiros cortados rentes e violentos olhos azuis claros.

Todavia a explosão que se seguiu pegou Mauro de surpresa. O soco voara em direção ao seu queixo com velocidade e força o jogando para trás e de encontro ao chão. Ele ficou tonto e sentiu o gosto de sangue.

— Maldito filho de uma cadela! Sua mãe é a culpada de tudo isso! Aquela vagabunda transformou você em uma maldita bicha!

— Cala a boca! – Mauro gritou de volta – Não ouse falar da minha mãe!

Luiz avançou para ele o levantando do chão pelo colarinho da camiseta, mas o rapaz se contorceu e deu um soco no pai, mas não fez muito efeito. Mauro não era tão forte apesar de ter um bom gancho de direita.

O pai o jogou de encontro à parede e socou a lateral de sua cabeça. Ele voltou ao chão atordoado e viu quando o pai avançou para o escritório e ele soube o que ia acontecer, seu pai ia buscar a Glock que tinha guardada, ele era louco o suficiente para matá-lo.

Levantou aos tropeços e saiu pelo jardim pela porta aberta. Era noite e ele tropeçou antes de se embrenhar na mata de eucaliptos que ficava atrás de sua cada e era da sua família.

Um estrondo atrás dele dizia que seu pai havia atirado e ele correu com mais velocidade não sabendo para onde estava indo.

O que havia dado na sua cabeça? Desde quando ele fazia essas bobagens impulsivamente? Podia ter simplesmente sumido, ido para algum lugar e recomeçado e não acabar sendo perseguido pelo doido do pai.

Tropeçando e escorregando ele corria ouvindo sons atrás dele.

De repente a floresta acabava e ele saiu para uma estrada asfaltada, era uma vicinal que cortava o município. Havia um pequeno caminhão para no acostamento e com o motor ligado com o motorista falando ao telefone. Sem saber o que fazer, Mauro subiu na carroceria quando o caminhão estava começando a entrar em movimento e se escondeu por cima de um encerado que escondiam algumas caixas.

Tremendo seu coração aos poucos foi se acalmando e ele finalmente percebeu o que estava acontecendo. Ele estava perdido, sem dinheiro e sem casa. Sozinho no mundo e não pode impedir que lágrimas viessem aos seu olhos enquanto sacolejava pela estrada.

A família do seu pai não gostava dele e mantinha distancia, ele não tinha amigos íntimos e a sua mãe... bem ele podia ter defendido ela, mas a verdade era que Sacha fora embora há mais de dez anos sem olhar para trás, deixando o filho com um homem amargurado a abusivo.

Sabia que eles viviam em uma região ao norte do Paraná, um lugar de serras e matas de araucárias, todavia ele nem mesmo tinha o nome da cidade e se perguntava se teria mesmo coragem de procurar eles se soubesse onde viviam, não queria ser escorraçado mais uma vez.

Sentiu-se tonto e nauseado e antes que desse conta desmaiou escondido pela lona.

~~***~~

Dalton resmungava enquanto dirigia pelas estradas. Sua mãe acabara de ligar com uma série de recomendações.

“Juízo Dalton! Não beba! Dirija com cuidado, cuidado com as curvas...”

A lista era longa e era isso sempre que ele ia viajar para entregar as esculturas que fazia na cidade de Belo Horizonte onde tinha compradores fieis. Sabia que podia contratar uma transportadora, mas suas esculturas eram seus bebês e ele se recusava e colocá-las nas mãos de qualquer um.

Com o radio tocando Adele ele corria os quilômetros louco para chagar em casa e comer o pão quente da vovó Lucia e implicar com Igor um dos seus irmãos mais novos que agora estava de namorada nova e isso era o suficiente para toda a família estar em cima.

Pobre menino.

Ele deu uma risada e acelerou mais cortando a noite.

Depois de algumas horas o dia amanhecia e ele finalmente viu a placa mostrando que o município de Mendes ficava a dois quilômetros apenas.

Um pouco antes de chegar a cidade ele entrou em uma estrada de chão observando o neblina noturna se levantas por entra as matas de araucárias que apareciam em pequenos espaços. O cheiro de mato e pinho invadiu suas narinas e ele se sentiu em casa.

A fazenda 3M ficava no pé de uma serra coberta de matas. As casas em estilo europeu apareceram assim que ele dobrou uma esquina. Os armazéns e a estrebaria também apareceram e ele podia ver os cavalos da sua irmã correndo pelos campos. À sua direita campos e mais campos de soja e milho formavam ondas ao sabor do vento matutino.

O caminhão atravessou uma pequena ponte que passava por cima de um pequeno rio que cortava a propriedade e formava uma represa mais abaixo. O rio descia da serra em uma cachoeira que ele e os irmãos usavam para se divertir nos fins de semana.

— Finalmente em casa – suspirou Dalton desligando o motor.

Kaila saiu correndo da casa e mau ele tinha saído do veiculo pulou nos braços dele.

— Irmão mal! – resmungou ele batendo no braço dele – Você podia ter me levado!

— E ser morto pela mãe? Nunquinha!

— Dalton!

Seu irmão mais velho desceu as escadas sorrindo para ele. Valentim era um homem de trinta e dois anos, alto e moreno do sol da lida. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos dourados sérios. Ele era alguém que você podia contar por toda a vida, mas era muito reservado e sério ao contrario da família bagunçada que tinha.

— Ei Valentim! Trouxe os seus livros.

Valentim era apaixonado por livros, novos, velhos, romances, ficção, fosse o que fosse ele lia e depois guardava na biblioteca que formara.

— Obrigado Dalton.

— E pra mim o que você trouxe? – Kaila fez um bico para ele e fincou as mãos nos quadris.

— Isso! – ele deu um aperto no nariz dela o que lhe rendeu um tapa na mão – Ai!

— Se você não me trouxe algo eu coloco minha tarântula na sua cama!

Se havia uma coisa que Dalton odiava era a bendita aranha da irmã. Onde Kaila estava com a cabeça para ter um mascote desses só Deus sabia.

— Pare de me ameaçar. Eu comprei as benditas maquiagens importadas.

Kaila deu um grito e pulou abraçando o irmão.

— Você é o melhor irmão do mundo!

— Interesseira.

— Agora onde está?

— Na carroceria debaixo da lona.

A moça correu lá e puxou a lona dando um grito que deve ter assustado a fazenda toda.

— Dalton você sequestrou alguém? Eu não quero ser presa diabos!

O rapaz e Valentim correram para lá e deram com Mauro desacordado em maio as lona e as caixas.

— Ele deve ter entrado em seu caminhão em algum ponto – disse Valentim olhando para o rosto ferido do menino, os cabelos loiros e compridos escondiam parte da face.

— Onde?! Eu conferi as caixas em uma parada no meio do nada e depois só parei na estrada para conversar com a mãe!

— O que está acontecendo?

Era seu pai. Wagner era um homem muito parecido com Valentim, com cinquenta e sete anos não mostrava a idade que tinha no rosto com algumas rugas. Era calmo e fechado, mas um pai amoroso para os filhos.

— Pai o Dalton sequestrou alguém! Temos que chamar a policia!

— Cala a boca peste! – Dalton rosnou para a irmã que lhe mostrou a língua.

Revirando os olhos castanhos, Wagner olhou para a carroceria observando os hematomas e que o menino não havia acordado com toda a gritaria dos seus filhos.

— Kaila que escândalo é esse? – tio Godofredo resmungou carregando um latão de leite – Até parece que a sua aranha mordeu você!

A moça contorceu o rosto para o velho senhor. Godofredo era irmão de Wagner e não podia ser mais diferente do outro. Três anos mais velho tinha parte dos cabelos grisalhos, era mais baixo e gostava de um bom vinho e uma boa fofoca. Solteiro convicto vivia para namorar e se divertir, mas era um trabalhador sério da fazenda e amava os sobrinhos com loucura mesmo que atormentasse eles de vez em quando.

— É melhor levá-lo para dentro – disse Wagner subindo na carroceria – Ele parece machucado.

— Mas a gente não sabe quem é ele – Valentim olhou com desagrado o menino sujo – Acho melhor descer para a cidade e deixar ele com a policia.

— Até onde eu sei eu não vou deixar alguém precisando de ajuda na porta da minha casa Valentim!

Wagner e Valentim por serem parecidos viviam tendo seus conflitos.

O pai pulou do caminhão com o menino nos braços e foi para a casa.

Era uma casa de dois andares feita de pedras claras, muitas janelas francesas e uma varanda na frente. O telhado era pontudo e de cor cinza e alguém conseguira que uma primavera branca crescesse e seus galhos foram sendo prendidos nas paredes. O efeito era de tirar o fôlego por sua beleza.

A sala tinha dois ambientes com sofás e poltronas em torno de um rack com uma teve de LED cinquenta polegadas e uma grande mesa de madeira parecendo muito antiga com dez lugares. Um escada de madeira subia para o piso acima e haviam mais duas portas, uma para o lavabo e outra para a cozinha de onde vinham cheiros de pão e café.

Wagner colocou delicadamente o menino no sofá afastando os longos cabelos loiros olhando o rosto contundido com um roxo no queixo e outro quase preto na testa.

Ele gemeu e abriu os olhos de um azul cobalto lindo.

— Você está bem? – Wagner tentou colocar a mão no ombro dele, mas Mauro pulou.

Onde diabos ele estava? Quem era aquele homem?

— Calma – ele se afastou e ergueu as mãos.

— Ei meu irmão sequestrou você? – Kaila apareceu atrás de Wagner.

— Kaila! – disse o pai contrariado para a menina.

Dalton tambem estava ali olhando para ele, mas Valentim estava na porta de casa com os braços cruzado olhando para o desconhecido com os olhos frios.

— Está tudo bem menino – disse Wagner – Meu nome é Wagner e esses são meus filhos.

— Gente eu nem fui olhar qual era o escândalo da Kaila – uma bela mulher entrou na sala carregando uma tigela com pães para por a mesa – Tudo bem? – ele olhou para o marido que estava inclinado em alguém deitado no sofá.

— Parece que achamos um intruso – disse Valentim para a mãe.

Wagner levantou o corpo para ralhar com o filho mais velho quando a tigela que a mulher segurava veio ao chão.

— Sacha?! – Wagner olhou assustado para a esposa, mas foi o que o menino disse que o deixou ainda mais pasmo:

— Mãe! – Mauro tremeu ao olhar para a mulher que lhe dera a vida e depois desaparecera.