Minha lista de blogs

sexta-feira, 23 de março de 2012

Rumo ao Paraiso - Capitulo 1

Capitulo Um



Laércio estava se segurando para não rir da mulher diante dele. Ela estava com os lábios franzidos e olhar frio, mas o efeito era atrapalhado pela gosma verde e fedorenta que escorria de seu cabelo e roupas.

— Uma coisa eu te digo seu Laércio – ela colocou as mãos na cintura – Seus filhos tem parte com o diabo. Eu vou embora! Não fico aqui nem mais um dia!

— Dona Margarida eu sinto muito.

— O senhor tem que dar juízo a seus filhos isso sim! – ela tentou fazer uma saída triunfal, mas escorregou quase caindo.

Assim que ela fechou a porta ele não conseguiu se segurar e começou a rir. Sabia que não deveria estar rindo das travessuras de seus filhos com a babá, mas a cara da mulher toda cheia de gosma era hilária demais.

— O senhor não devia dar corda – uma senhora idosa entrou com uma bandeja de café – Seus meninos estão ficando grandes para isso.

— Ela tinha uma cara tão séria Aninha que eu não pude resistir.

— Você já se deu conta que agora você é quem vai tomar conta deles?

— Amo meus filhos, mas eu não tenho o pique deles. Sabe onde é que eles andam para que eu dê o castigo que merecem?

— Regina desceu para a colônia, deve ter ido falar com a Isa. Jonathan está nos jardins ajudando o jardineiro e a dupla dinâmica Samara e Kauan estão empoleirados no pomar com o Zeca e o Berto.

— Agora devem estar bem mansos, não é?

— Sei que não gosta de castigá-los, mas esses são uma das consequências de ser pai. É sua função saber o que é melhor para eles.

Laércio sabia que Aninha estava certa. Levantou batendo no ombro da mulher que conhecia há mais de vinte anos e foi atrás dos filhos.



O touro negro de meia tonelada bufava no cercado feitos de ripas de madeira grossas e olhava para os homens do outro lado como se calculasse com ele ia chifrá-los.

— Eu juro que esse boi não gosta da gente – resmungou Leonardo, um vaqueiro de pele curtida do sol e estatura baixa.

— Concordo com você – Marcos Roberto era um rapaz alto, de olhos azuis se destacando no rosto cor de canela.

— Se vocês deixassem o Midnight em paz ele não ia ter vontade de matá-los – Márcio era administrador da fazenda. Era um homem de quase dois metros de altura, de constituição forte, com cabelos castanhos e olhos negros.

Do lado dele vinha outro funcionário da fazenda. Alberto era advogado, mas se vestia com as mesmas roupas despojadas dos outros e seu inseparável chapéu Stetson. Era um homem de pele também morena, com os olhos verdes e cabelos castanhos encaracolados. As mulheres costumavam se virar na rua para olhá-lo, mas ele fazia questão de dizer que estava comprometido. Berto era gay e tinha um companheiro há oito anos.

O touro parecia que percebera que estavam falando dele. Deu um passo para trás e investiu contra a cerca de madeira com tudo. A estrutura inteira estremeceu e Marcos e Leo deram um pulo para trás.

— Eu não sei como tem gente que desafia um bicho desse no rodeio – Leo olhou com aversão para o animal.

Midnight nunca havia deixado um peão em cima de seu lombo mais que oito segundos. Por isso mesmo a cada rodeio que o touro participava um numero grande de peões estava disposto a tentar a sorte. Havia um premio de cem mil reais para quem ficasse em cima dele oito segundos e isso era mais um incentivo para tentarem a sorte.

A fazenda Paraíso era conhecida por ter uma tropa de touros de rodeio respeitada no Brasil e na América do Sul. A fazenda também tinha uma grande produção agrícola de café, milho e soja. Alem disso havia uma imensa reserva legal de matas intocadas atraindo dezenas de visitantes todos os fins de semana.

Nesse momento o celular de Márcio tocou e ele atendeu sem nem mesmo olhar o numero:

— Alo?

— Márcio? – por um momento ele não reconheceu a voz tremula, mas de repente percebeu de quem era.

— Fabian? É você? – ele deu um grande sorriso. Fazia cinco anos que ele não tinha contato com seu irmão caçula.

— Sim – sua voz era triste e rouca e isso preocupou Márcio.

— Fabian o que está acontecendo? – ele se afastou do grupo de rapazes indo para perto de uma árvore ali perto.

— Márcio eu preciso de sua ajuda – ele falava rápido como se fosse perder a coragem a qualquer momento – O pai...

— Ele ti fez algo? Me fala!

— Foram só alguns arranhões, mas ele tentou bater no Gabriel.

— Gabriel?

— Meu filho, Márcio. Você é tio.

— Você casou irmãozinho? – Márcio sabia que o irmão era gay, coisa que eles escondiam bem do pai.

— Não. A mãe dele era a Irma. Lembra dela?

— Era a sua melhor amiga, não?

— É. Ficamos uma noite e ela engravidou, mas morreu no parto.

— Sinto muito Fabian, mas onde você está? Não pode ficar com o pai! Melhor eu vou ai em São Paulo ti buscar. Procure um hotel e eu pago...

— Calma! – na voz de Fabian havia um sorriso – Na verdade eu estou na rodoviária da cidade de Altinópolis.

— Graças a Deus! – suspirou Márcio – Calma ai que estou indo ti buscar ai a gente conversa com calma.

— Obrigado irmão.

— Não precisa agradecer, vai ser bom ter a minha família por perto – ele desligou o telefone e correu para os outros – Pessoal eu tenho que ir até a cidade buscar meu irmão que chegou da capital. Se o Laércio perguntar de mim avisem que tive uma emergência.

— Está tudo bem com seu irmão? – perguntou Alberto preocupado.

— É isso que vou ver Beto – ele desceu correndo para pegar as chaves da sua caminhoneta que estava em casa.



Fabian estava tão aliviado que sua mão tremia quando desligou o telefone. Era um alivio saber que ele podia contar com seu irmão, que não ia ficar na rua com Gabriel.

O bebê ajeitou no cesto, mas não acordou. Ele o cobriu melhor estremecendo no ar frio da noite que chegava. Ele não tivera tempo de pegar blusas quando saíra correndo de casa, só o moletom que vestia o que não era muito para o inverno.

Seu estômago voltou a reclamar e ele se sentiu subitamente cansado como se um grande peso fosse retirado de suas costas. Esfregou o rosto onde havia uma barba rala. Ele odiava aparecer na frente de Márcio como um mendigo, mas não via outro jeito.

Com vinte e seis anos ele podia ser considerado um rapaz bonito, apesar de seu corpo magro. Seus olhos eram castanhos atrás dos óculos com aro de metal, tinha sobrancelhas bem desenhadas em um rosto em forma de coração. Ele era de estatura mediana, mas sempre quisera ser mais alto.

Quando tinha treze anos havia descoberto que também gostava de olhar os garotos mais que as garotas e aos catorze havia tido uma paquera com um amiguinho de escola, mas o medo de ser descoberto pelo pai homofóbico o fezele sair do namoro.

Apenas seu irmão e sua melhor amiga Irma sabia de sua preferência sexual. Ele se considerava um covarde por ficar no armário com medo do pai e da violência que se espalhava como uma praga pela cidade de São Paulo. Havia visto jovens gays apanhando por apenas andarem de mãos dadas e até mesmo um pai e um filho por estarem em um show de rock abraçados, curtindo a banda que era a paixão de um e de outro.

Ele tinha medo da violência, medo da dor. Diante do mundo que era a favela ele havia aprendido a ter medo e que esse medo podia mantê-lo vivo em algumas situações. Revidar não era o melhor caminho sabendo que ele estaria só contra muitos.

Olhou algumas pessoas passando na rua. Suas roupas estavam sujas de terra assim como seus velhos chapéus de palha. Carregavam mochilas puídas e grandes garrafas térmicas para água. Deveriam estar vindo dos seus trabalhos nas fazendas que era a fonte de emprego da maioria das pessoas dali, ele imaginou, pois não viu nem uma indústria.

Eles lhe lançaram um olhar curioso, mas continuaram seu caminho até sumir em uma esquina.

Finalmente o sol se pôs e as postes começaram a ascender lançando uma luz amarela à volta. As casas que ele podia ver ao longe também tinham as luzes ligadas o que deu uma sensação de saudade em seu peito. Ele vivia em uma favela, mas aquele havia sido sempre seu lar. Ia sentir falta da conversa das pessoas a sua volta, da risada escandalosa da vizinha, de Irma.

Sua amiga havia morrido no parto. Sua pressão alta havia levado a melhor sobre ela na mesa da cesárea.

Quando soubera na sala de espera do hospital ele se sentira terrivelmente culpado. Se não estivesse tão bêbado na festa ou pelo menos usado um preservativo sua amiga não teria ficado grávida e morrido. Todavia tudo isso desaparece da sua cabeça ao olhar seu filho, um pequeno pedaço de gente lutando para viver na incubadora.

Durante um mês ele estivera ali, dia e noite esperando que seu pequeno Gabriel sobrevivesse e fosse para casa com ele.

Finalmente pode ter seu filho nos braços e ir para casa onde seu pai estava esperando para jogar na cara dele que não ia sustentá-lo e ao seu filho. Fabian sabia disso e sabia que havia um emprego esperando por ele que ele sempre se recusara, mas agora, por seu menino ele ia fazer.

De repente o som de pneus parando ali perto o tirou de seus devaneios e ele viu seu irmão pulando de uma caminhoneta S-10 azul cobalto com um intrincado FP entrelaçado em um logotipo na porta.

Era a primeira vez que ele via o seu irmão depois de quase dez anos afastados. Márcio estava com algumas rugas em torno dos olhos e sua pele mais morena.

— Fabian! – ele correu a abraçou apertado o irmão mais novo que sorriu em meio as lágrimas – Irmãozinho como é bom ti ver!

— Senti saudades também Márcio.

Seu irmão mais velho o afastou olhando para o olho roxo de Fabian e o lábio rachado.

— Você tem certeza que está bem? Posso te levar a um pronto socorro daqui.

— Eu estou bem sim. Eu bato na cabeça dele antes que fosse mais longe – apontou para o cesto – Que tal conhecer seu sobrinho?

Encantado Márcio olhou para o menino que dormia tão tranquilamente naquele velho moisés se encantando ao ver traços do Fabian nele, como o formato do rosto e as sobrancelhas.

— Ele é lindo Fabian.

— É a única coisa que me restou irmão.

— Nada disso. Você tem a mim também e uma casa para onde ir. Eu nunca gostei de ficar sozinho e eu deveria ter ido buscar você há mais tempo.

— Você sabe que eu sempre tive esperança que o pai largasse a bebida e a droga, por isso eu continuei com ele. Sei que é idiotice por que ele nunca quisera parar.

— Vamos pra casa para que você possa tomar um banho e um descanso. Imagino que esteja com fome – ele disse enquanto pegava as malas do irmão e este o cesto.

— Estou morrendo de fome irmão.

— Logo, logo a gente ta em casa – ele colocou as coisas na caçamba e abriu a porta do passageiro para Fabian entrar com o moisés – Você vai adorar o Paraíso!

sábado, 17 de março de 2012

Caminhos do Destino - Capitulo II

Capitulo 2


Paul estava colhendo amoras naquele dia e isso o levava um pouco longe de casa. Ele podia confiar que Sara e Gabe cuidariam das crianças já que não podia leva-los para aquela parte da mata, tão afastada e perigosa. Infelizmente por isso era o local onde existiam as melhores frutas.
Descansou a sexta no chão limpando o suor da testa com a mão percebendo que com isso só estava deixando o rosto coberto de roxo com o suco das frutas.
— Vou dar uma parada – murmurou ele indo para perto do lago que ficava afastado da trilha.
Passou por fadinhas que, pousadas nas folhas de arbustos floridos, riam para ele.
Paul adorava as fadas da floresta. Eram pequenos seres delicados, com vinte centímetros de altura, asas translúcidas e corpos brilhantes. Elas eram protetoras das matas e quando reunidas podiam fazer muito estrago a uma pessoa.
As fadas também gostavam de Paul que sempre dava geléia quando iam a sua casa.
— Vocês estão muito felizes hoje! – disse Paul passando por outro grupo que soltava risinhos.
— Ola Paul! – diziam elas para saírem voando rindo.
Balançando a cabeça o rapaz foi em direção ao lago, mas parou na sua borda atrás de um arbusto ao ver que o lago já estava ocupado.
“Por isso aquelas fadas safadas estavam rindo”! – pensou ele olhando para o lago.
Era pequeno, com as margens e fundo de pedras. Uma pequena cascata caia de um lado enquanto de outro um córrego se formava indo em direção a mata fechada. Moitas de frisos, um arbusto de flores brancas, que davam em cachos e tinham intenso perfume, cercavam quase toda a borda do lago. O ar estava impregnado de perfume e borboletas azuis voavam por todo o lado.
Banhando-se no lago estava o rapaz do dia anterior que falara com ele na feira. Nu e sem nem um pudor ele estava sentado em uma pedra observando as borboletas e se deliciando com o sol na sua pele molhada.
Paul sentiu a garganta seca ao olhar para a sua pele dourada coberta de respingos, os músculos bem definidos dos braços e coxas, o abdômen liso e marcado pelos músculos coberto de pelos escuros que desciam... Fechou os olhos coberto de vergonha ao perceber o quanto excitado aquele corpo perfeito o deixava. Como que puxado por um imã Paul voltou a observar aquela beleza máscula com vontade de lamber cada gotícula de água que escorria por seu corpo.
Com o rosto vermelho ele resolveu dar um basta nas suas fantasias. Engolindo em seco procurou se afastar silenciosamente da borda do lago, mas atrapalhado do jeito que estava não teve sorte. Um pequeno coelho passou correndo na sua frente, fazendo ele tropeçar e cair para trás... direto no lago!

Mathew sempre gostara dos bosques e matas do principado do irmão. Era uma região linda e fértil, mas sem riquezas com ouro e prata. A maioria dos nobres eram fazendeiros que cultivavam uma terra fértil onde quase não se tinha problemas como secas e pragas. Muitos dos alimentos do reino de Gaulesh, onde o irmão de Mathew e Phillip era rei vinha de Haven.
A proteção de um dos reinos mais poderosos do leste fazia com que a maioria dos invasores pensasse duas vezes antes de chagar perto de Haven, alem do fato de que o rei Dylan tinha como aliados os reinos mágicos do norte como os reinos elficos e dos anões.
Aquela era uma região de abençoada paz que Mathew pedia a Deus para que continuasse assim.
Com esses pensamentos ele se embrenhou nos bosques celtas encantado com suas velhas arvores, cipós floridos e perfumados e os arbustos de amoras, ameixas, framboesas e groselhas. Ele se fartou com as frutas adorando estar um pouco só, já que o irmão insistira que ele tinha que andar com um guarda-costas.
Pelo amor de Deus! Mathew havia viajado por todo o reino enfrentando bandidos por todo o caminho e sempre soubera se defender. Phillip deveria achar que ele ainda era uma criança! Suado e com calor não pensou duas vezes em se deliciar com um banho no lago que ficava no centro da floresta. Retirou as roupas e deu umas braçadas, mas o lago era pequeno e raso, em pé não batia nos seus quadris. Sentou em uma rocha para apreciar o sol e as borboletas quando sentiu que estava sendo observado. Sabia que a mata era cheia de seres mágicos, mas quem os estava olhando era um ser humano e pelo barulho dos passos alguém leve e de baixa estatura. Qual não foi a sua surpresa ao perceber pelo canto dos olhos Paul meio escondido pelos frisos olhando-o de olhos arregalados e rosto muito vermelho. Com certeza ele não esperava encontrar alguém naquele lugar afastado. O rapaz parecia hipnotizado por ele, mas logo balançou a cabeça e se afastou.
Mathew teve vontade de chama-lo de volta, mas alem de constranger Paul isso só ia deixar ele assustado.
Qual não foi a surpresa dele quando Paul caiu na água como uma pedra.
— Parece que esse lago não é tão solitário assim – comentou ele com uma nota de sarcasmo ao ver Paul se levantar cuspindo água e afastando os cabelos do rosto.
Paul voltou a cair sentado olhando assustado para Mathew que continuava sentado olhando ele com ar divertido.
Naquele momento tudo que Paul mais queria era que o chão, nesse caso o lago, se abrisse e engolisse ele. Ofegante ficou em pé totalmente molhado, as roupas e o cabelo pesando uma tonelada.
— Que coisa feia ficar espionando uma pessoa tomar banho – continuou a cutucar Mathew.
— Eu não estava ti espionando – respondeu Paul contrariado e com o rosto pegando fogo.
— Então o que você estava fazendo?
— Isso não ti interessa! – respondeu ele partindo para o ataque como sua melhor defesa indo para a margem mancando depois do escorregão no lodo do lago e quase caiu novamente, mas foi seguro por trás.
— Cuidado – disse uma voz rouca em seu pescoço fazendo ele dar um pulo de susto.
Mathew havia se aproximado e segura seu ombro para que ele se equilibrasse.
— Estou bem, obrigado – respondeu Paul tentando se afastar, mas antes que pudesse reagir foi pego no colo por Mathew – O que esta fazendo? – perguntou vermelho e ofegante ao ser apertado contra um peito nu.
— Ti ajudando a sair de uma situação complicada e para de se debater!
O príncipe saiu do lago com desenvoltura deixando Paul em pé na margem, que muito vermelho ao vê-lo sem roupa baixou a cabeça e deu-lhe as costas.
— Quanto pudor! – ironizou ele pegando a calça que deixara ali perto vestindo-a – Pronto, já estou apresentável – disse ele com ironia vestindo a túnica pela cabeça.
— Agradeço a ajuda – resmungou Paul ainda sem olha-lo fazendo menção de pegar a cesta, mas a torção no seu pé o fez parar e gemer.
— Todo bem? – perguntou o outro preocupado.
— É só uma torção – disse ele respirando fundo e tentando andar, mas antes que desse o primeiro passo Mathew havia se ajoelhado para dar uma olhada.
— Se apóie em mim para dar uma olhada.
— Não precisa! – resmungou o outro novamente vermelho.
— Vamos Paul! – disse o príncipe quase perdendo a paciência – Coopere.
O outro segurou no ombro dele, enquanto Mathew erguia a barra da longa túnica e da calça olhando para as sandálias do rapaz.
— Usar sandálias na mata é perigoso – ele começou a desafivelar a sandália de couro – Mas eu esqueci que é parte do seu uniforme imposto pela igreja. Como você aceita isso! – apertou o tornozelo fazendo ele gemer – Só esta torcido.
— Isso eu já notei – respondeu ele contrariado por Mathew ter implicado com roupa que usava.
— É melhor tirar essa roupa e por para secar – disse Mathew vendo ele tremer no vento que soprava na mata.
— Ti... tirar minha roupa!?
— Tire e vista isso, senhor pudico – disse o outro jogando uma longa capa para ele e ficando de costas – É melhor tirar ou eu faço isso!
Paul ofegou contrariado e constrangido, mas começou a tirar a túnica que ia até os tornozelos, a camisa que usava por baixo, a calça e a roupa intima se enrolando na capa que tinha o cheiro dele, maçã e cedro, como Sara havia dito. O outro pegou as roupas do outro e jogou nas moitas de frisos espantando uma nuvem de borboletas e espalhando o perfume pelo ar.
— Logo vai estar seca – disse ele dando um assovio longo e de repente um cavalo negro como a noite apareceu trotando.
Paul sentou encostado em uma arvore enrolando o manto em volta do corpo, sentindo o cabelo molhado escorrendo pelo rosto.
— Como sabe meu nome? – perguntou ele para Mathew que acariciava o pescoço do cavalo.
— Eu perguntei para o prefeito quando ti vi na feira. Pensei que você era uma moça, mas ele me disse que você é um garoto...
— Garoto?! – já fazia muito tempo que não era chamado assim – Já tenho vinte e dois anos senhor...
— Príncipe Mathew de Haven – ele fez uma mesura para Paul – Ao seu dispor.
— Príncipe?! Irmão do príncipe Phillip?
— Exato. Resolvi passar uns tempos nas terras do meu irmão e acho que não vou me arrepender – ele o olhou de modo malicioso.
O outro estava novamente vermelho e agora muito embaraçado. Estava diante do príncipe do reino de Haven, o reino mais poderoso do leste e isso deixava Paul um pouco temeroso.
— Não precisa fazer essa cara – disse o rapaz – Eu não mordo.
Paul não soube o que responder, mas aquele olhar felino dizia que ele mordia sim e bem fundo.
— Você é casado? – Mathew queria saber mais da vida daquele ser tão lindo.
— Não – a resposta foi seca.
— O prefeito me disse que você tem cinco filhos, quatro são adota...
— São meus filhos – disse ele com os olhos cor de mel lançando chispas – e você não tem nada a ver com isso!
— Você ergue as penas quando fala dos seus filhos, heim galinha choca?
— Galinha! – Paul ficou de pé vermelho de raiva – Quem você esta chamando da galinha choca, grande príncipe?
Mathew estreitou os olhos mordido e foi até o rapaz inclinado a cabeça para falar com o outro que era trinta centímetros mais baixo.
— Tenha um pouco de respeito, moleque!
— Então meta-se com a sua vida! – ele, quase sem perceber, espetou o dedo no peito do príncipe que o olhou com os olhos brilhando.
Antes que Paul pudesse fazer algo Mathew segurou seu queixo e o beijou. Foi um beijo quente e sedento que nublou a mente de Paul na hora e fez seu corpo despertar para o prazer, para algo que ele se privara por tantos anos. Mathew tinha gosto de uma tarde quente de primavera e de doces frutas dos bosques, era embriagador como o mais fino vinho.
Para o outro o sentimento também não era diferente. Mathew apertou a fina cintura de Paul apertando o seu corpo de encontro ao dele como se quisesse fundi-los. A boca do outro era quente e doce, seu sabor era de geléia de amoras, forte e encorpada e ele percebeu que ia se viciar nesse sabor. Ele podia sentir que o outro estava ficando tão excitado quando ele.
De repente algo aconteceu, Paul o empurrou e se encolheu na sua capa com um olhar assustado nos olhos dourados.
— Pare com isso! – ele gritou tremulo. Seu rosto estava vermelho.
— Não seja hipócrita em dizer que você não gostou! – ele ainda estava ofegante pelo beijo.
— Hipócrita é você, seu projeto de príncipe!
— Do que me chamou? – os olhos de Mathew brilhavam de raiva – O único projeto aqui é você! Um projeto de curandeiro!
— Como você se atreve a falar comigo desse jeito! – Paul apontou o dedo para o nariz dele.
— Baixa o seu tom ou da próxima vez ti deixo morrer afogado!
— Pode ter certeza que não haverá uma próxima vez! Agora será que pode me dar licença para que eu possa pegar as minhas roupas e sair de perto de você!
— Com certeza my lord – Mathew se inclinou como se estivesse diante de um grande rei.
Cheio de raiva, Paul jogou a capa na cabeça dele e pegou suas roupas mancando e inda atrás de uma árvore.
Bufando o príncipe retirou a capa e teve ganas de cometer um assassinato. Ele não podia crer que ficara pensando naquele garoto lindo a noite toda, o deixando tão excitado que teve que se satisfazer com sua mão como se fosse um adolescente. Agora descobria que o seu doce e lindo rapaz é um mau humorado, sem educação, desrespeitoso e mais alguns nomes impublicáveis.
Paul saiu atrás da árvore mancando acentuadamente e pegou a cesta sem nem mesmo olhar para o príncipe que rangia os dentes e pedia toda a paciência que Deus pudesse lhe dar e mais um pouco.
Subiu no cavalo e foi até perto do outro.
— Você vai subir por bem ou eu vou ter que ti arrastar para cima do cavalo?
— Não se preocupe majestade. Eu tenho dois pés e posso muito bem chegar até a minha casa.
— Você só pode estar gostando de me enfurecer, não é?
— Eu?! – ele parou olhando vermelho de raiva para o principe que olhava para as unhas em uma atitude infantil – Você acha que eu tenho tempo para ficar perdendo com picuinhas como estas? Ao contrario de você eu trabalho e muito para cuidar da minha família.
No mesmo instante Paul percebeu que tinha falado a coisa errada. Os olhos azuis escuros do outra brilharam de uma forma fria e sua boca se transformou em uma fina linha.
— Ou você sobe neste cavalo ou eu não vou ter escrúpulos nem um de deixar os seus filhos órfãos.
Percebendo que falara demais ele colocou o pé no estribo e Mathew o ajudar a sentar a sua frente no cavalo. Mau ele tinha montado o príncipe incitou a sua montaria para sair a galope e Paul teve que se segurar para não cair.
Ele podia sentir a raiva no outro e isso lhe dava um grande mal estar. Ele havia sido injusto e já fora alvo de muitas injustiças para saber o quanto isso doía.
— Me desculpe príncipe Mathew – ele murmurou – Eu passei dos limites e falei uma bobagem sem pensar.
Ele relaxou visivelmente, mas sua voz era dura ao responder.
— Só uma?
— Eu estou me desculpando e você me goza?
— Você acha mesmo prudente brigar em cima do mesmo cavalo?
— Eu não estou brigando! Só quero me desculpar por uma injustiça minha. Já ouvi muita coisa dita pelas pessoas no calor do momento e que me feriram, para que eu faça a mesma coisa – no final sua voz é um sussurro.
— Você fala dos padres?
— Deles, dos outros. Dói quando escuto que sou um amaldiçoado, mas dói cem vezes mais quando escuto eles falarem assim com meus filhos. São apenas crianças, não tem culpa de nada.
— E você tem?
— O que quer dizer? – Paul olhou para cima encontrando seu olhar em um misto de ferocidade e raiva.
— Você tem culpa de ter nascido hermafrodita? Qual é o pecado disso? Nós somos o que somos e devemos nos orgulhar disso – apontou para a mata onde raios de sol dourado se infiltravam pelas copas das arvores iluminando nuvens de borboletas azuis – Meu irmão mais velho sempre costumava dizer que toda a vida, seja qual for, é um milagre e deve ser saldado como tal.
— Seu irmão é sábio.
— É – ele parecia querer dizer mais alguma coisa, mas resolveu ficar em silencio, assim como Paul que observava a mata como se de repente a visse pela primeira vez.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Rumo ao Paraíso

Prólogo



Então ele estava ali! Mas onde exatamente era aquele “ali”? Um barracão de telha de zinco que cobria dois banheiros, um bar, um guichê e um punhado de bancos de madeira deteriorados. O terreno em frente, nos fundos e aos lados era um grande terreno baldio cheio de mato onde alguns garotos corriam soltando pipas no vento frio da tarde.

O ar estava carregado de partículas de poeira que dançavam ao redor dos raios de um sol vermelho e pálido. Tudo a sua volta tinha um estranho cheiro de terra e mato que ele não estava acostumado e que o deixava inquieto.

A verdade com os seres humanos é esta, o desconhecido nos assustam de tal forma que a coisa mais simples e cotidiana parece terrivelmente perigosa se ela é algo novo. Nada podia ser mais pacato que aquele lugar onde nem mesmo um carro passava e onde o silencio convidava-nos a sentar e filosofar sobre o porquê da vida.

O céu de um azul pálido tinha algumas nuvens que, nos raios do sol, pareciam sujas como se tivessem rolado na terra marrom e depois corrido para o céu.

Ele se mexeu inquieto no banco de madeira onde faltavam diversas ripas olhando de lado para os tipos que tinham descido com ele do ônibus.

Um rapaz negro, com várias correntes e boné de lado falava ao celular. Ele parecia grande e mal, mas as suas palavras mostravam o quanto é errado o tal primeiro olhar:

— Tá mãe! Eu truxe o teu remédio! Truxe o doce da Carla também! Ta eu compro carne pra senhora. Beijinhos minha fofinha – ela afastou o telefone da orelha quando ela disse algo – Que coisa feia xingar, fofinha!

Ele desligou antes que ela respondesse e ele foi descendo a rua rindo e carregando as suas sacolas.

Havia também um casal de pessoas com mochilas e barraca de camping que conversavam com um rapaz loiro, cabelos compridos e corpo bem formado. Era um guia que ia levá-los para acampar em um lugar chamado Morro da Mesa.

— Sera que você trouxe bateria suficiente dessa vez Melissa? – perguntou o rapaz moreno que a acompanhava – Eu não quero perder nada!

— Trouxe Rodrigo – ela revirou os olhos – Quem sabe dessa vez você consegue uma exclusiva com um ET.

— Vocês são caçadores de OVINS? – o guia loiro parecia quase em pânico.

— Dos melhores – disse Rodrigo estufando o peito e querendo parecer maior que o seu metro e sessenta – Nossas fotos já até apareceram na revista UFOs e CIA.

— Uma revista fulera da capital que vive inventando teorias da conspiração furadas – respondeu a moça quase com enfado – Cara eu já vi tanto balão voador por ai que se tiver mesmo algum ET na Terra, quando eu o encontrar, lhe dou um soco na cara por ter se escondido tão bem.

Eles rumaram para a caminhoneta do guia que parecia que tinha chupado limão, enquanto Rodrigo e Melissa discutiam se o presidente americano era um reptiliano, fosse lá o que fosse isso.

No outro banco haviam duas senhoras sentadas olhando tudo em volta e não perdendo nada.

— Cotinha cê o filho do Carlão da padaria? Comu é qui aquele meninu tava vestido?

— É o fim do mundo Benta! To falando proce, é o dia do juízo final.

— Cotinha ce viu aqueles dois atrás dos tais “OVI”?

— Esse mundo ta perdido Benta. Esse povo vem lá da capital pra ficar a toa, escreve o que eu to falando!

As duas o olharam e pareceram cair em si levantando do banco e saindo para a rua falando mal de alguma pobre vizinha. Elas andavam no meio da rua como se ali nunca passasse um carro.

Respirou fundo olhando para o último ser que restara ali. Ele dormia calmamente em um velho moises azul, cercado por sua manta amarela de lã. Cabelos castanhos cobriam sua cabeça e uma pequena mão aparecia por entre as dobras do cobertor.

Com delicadeza ele segurou os pequenos dedos acariciando com cuidado.

Seu filho era a única coisa que restara na vida de importante. Por ele havia fugido de São Paulo com duas pequenas bolsas, a maioria roupas de seu filho e o moises, com apenas o dinheiro da passagem para aquela cidade perdida no interior.

Era ali que seu irmão mais velho morava e só ele sabia disso. Márcio havia saído de casa há dez anos quando seu pai o lhe dera uma surra por se recusar a dar o dinheiro que ele tinha ganhado trabalhando de entregador numa padaria da favela. Durante cinco anos ele nada soubera do irmão até que ele recebeu um telefonema dele contando que estava bem e onde estava morando. Deixara também o numero de um telefone celular que ele nunca ligara.

Jogou a cabeça para trás abraçando-se no ar frio. Nem mesmo sabia se Márcio continuava ali, mas tudo acontecera tão depressa e ele não pudera ligar avisando de nada. Nas rodoviárias que tinha esperado ele não tivera coragem de ligar para ele.

E se ele não o aceitasse? Se mandasse ele se virar? O que ia fazer? Ia viver nas ruas com seu filhinho?

— Você é um covarde Fabian – gemeu ele.

Quem sabe se alguma vez ele tivesse enfrentado o seu pai ele não estivesse naquela situação, sem teto e morrendo de fome.

Sei estômago roncou lembrando ele que não comia nada a quase trinta e sei horas. O leite de seu filho havia acabado também.

Era hora de tomar uma atitude! Pegou seu celular e procurou o numero programado. Apertou o botão de discagem rápida com a mão tremendo. De repente ele ouviu a voz forte de seu irmão e seu coração disparou:

— Alo?



Continua...

Caminhos do Destino

Capitulo I



Paul retirou os cabelos dos olhos com impaciência. Eles precisavam de um corte, mas ele gostava deles daquela forma, praticamente abaixo da cintura; talvez isso fosse uma maneira de compensar o seu corpo sem pelos. As únicas exceções eram as sobrancelhas bem desenhadas, os cílios longos que emolduravam olhos cor de mel e os cabelos levemente crespos e castanhos.
Paul era o que se chamava de duo, dualidade, na verdade ele era um hermafrodita, possuía os dois sexos. Os do tipo dele era um resquício de uma época em que o homem brincava de Deus e criava seres ao seu bel prazer, pelo menos era isso que se lia em antigos livros que contavam a história da humanidade antes da grande tragédia, quando quase toda civilização havia sido extinta e sua tecnologia destruída. Ninguém sabia ao certo quanto tempo fora isso, mas muitos sábios diziam que havia sido a muitos milhares de anos.
O mundo desde então havia se reconstruído e a humanidade também, mas de outra forma. Já não havia a tecnologia ou grandes paises. Agora reinos se espalhavam pelas terras e a tecnologia não tinha vez em um mundo onde a magia perpetuava. Os humanos agora eram dotados de grandes poderes tanto para o bem quanto para o mau.
— Hei! – o grito de Mara chamou a sua atenção e ele acenou para a moça que vinha ao seu encontro nas terras onde ele colhia morangos e amoras.
Mara era uma mulher alta e forte que manejava uma espada como um guerreiro e mesmo se vestia como um preferindo manter os cabelos curtos. Ela era amiga de Paul há sete anos.
— Como vai Mara?
— Estou bem – ela parou a carroça longe dos morangos para não estraga-los – Vim atrás de mais geléia Paul. As que eu tinha vendi todas.
— Todas! – admirou-se o rapaz.
— O povo do castelo comprou tudo para a chegada dos parentes para a festa da colheita. Eles me disseram que se eu tivesse mais eles ficariam com elas.
— Que maravilha Mara! – ele sorriu aliviado – Estava começando a me preocupar com as contas esse mês.
— Rapaz – ela deu um tapa nas suas costas que quase o jogou longe – Se eles provarem da sua geléia nunca mais vão querer outra!
— Por Deus Mara – gemeu ele massageando as costas – Sua mão pesada um dia vai quebrar algum osso meu.
— Deixa de frescura e vamos logo!
Ambos subiram na carroça e pegaram a estrada que cortava os bosques Celta indo rumo à casa de Paul que não ficava muito longe.
Era uma casa de pedra antigamente usada como casa do guarda caças do príncipe Phillip, mas fora doada a vila assim como o bosque e os moradores haviam deixado Paul e seus filhos morarem ali.
A casa era antiga e coberta de hera em seus dois andares, mas havia sido bem construída com banheiros de água encanada e torneiras na cozinhas. Era cercada de arbustos floridos aonde as fadinhas do bosque vinham sentar nas noites de lua cheia e um gramado aparado a muito custo por Paul que era apaixonado por gramados.
Assim que pararam na frente à casa cinco crianças saíram correndo de lá.
Gabe era o mais velho de treze anos. Era um garoto magro de olhos verdes e cabelos negros tão cumpridos quanto os do pai. Suas expressão era séria e melancólica.
Sara era uma moça linda de treze anos. Os cabelos eram curtos e loiros e os olhos azuis eram opacos. Sara era cega.
Depois vinha Shon, um menino de sete anos de cabelos dourados e olhos de um azul violeta que não se via igual em local algum. Era um garoto risonho e se parecia muito com Paul menos nos olhos.
Por fim vinham dois garotinhos de quatro anos Jason e Jared. Ambos tinham os cabelos loiros e olhos castanhos e se pareciam um pouco, mas não eram irmão de verdade, alias não nem um deles eram irmãos de sangue e apenas Shon era filho legitimo de Paul.
— Papai!
— Mãe!
— Eles ainda não sabem pelo que ti chamar? – riu Mara pegando a cesta de frutas do rapaz ajudando ele a descer.
— Bem Gabe é o único que me chama de pai, para o resto eu sou a mãe.
— Ola Mara! – gritou Sara toda feliz indo à direção e eles era incrível o seu senso de direção.
— Oi Sara, oi meninos.
— Gabe você me ajuda a pegar os vidros de geléia?
— Conseguiu vende-los pai?
— Graças a Mara conseguimos – Paul se virou para a filha – Meu anjo será que pode ir limpando os morangos? Faremos mais geléia.
— Podemos ajudar mãe? – perguntou Shon sorrindo o seu sorriso mais inocente.
— Sei o seu tipo de ajuda Shon – resmungou Paul – Logo a cozinha vai estar coberta de morangos e mel. Deixa a Sara em paz e vão os três brincar.
— Vamo Shon – Jared o puxou pela mão – Ainda não terminamos o nosso forte!
O garoto lançou um olhar contrariado par à mãe/pai e acompanhou os menores.
— Ele esta crescendo – comentou Mara olhando com carinho para o garoto – Parece que foi ontem que eu achei você caído debaixo daquela rocha dando a luz. Quantos anos você tinha?
— Quinze anos. Eu nem sabia que estava grávido até algumas mulheres comentarem que meus enjôos pareciam de gravidez – Paul abraçou-se triste – Você não sabe da vergonha que senti Mara. É tão raro um hermafrodita ter filhos, na maioria somos estéris e de repente estava eu ali com apenas quinze anos e esperando um filho sem nem mesmo saber onde o pai estava. Quando meu pai descobriu espancou-me tanto com a esperança que eu abortasse que senti medo que algo tivesse acontecido a criança que eu carregava, mas ela era forte e continuou viva e crescendo. Naquela noite fugi do chiqueiro onde era obrigado a viver e comecei a vagar pela estrada – ele sorriu para Mara – Agradeço a Deus todos os dias por ele ter colocado você no meu caminho, minha amiga.
— Pois eu que agradeço Paul. Se não fossem suas ervas boa parte da vila teria morrido na época da peste negra.
— Aqui – Gabe vinha chegando com uma sexta cheia de potes de geléia de morango e amora – Estamos praticamente a zero agora pai.
— Tudo bem – Paul bagunçou os cabelos do filho enquanto Mara pegava a sexta – A gente produz mais.
— Vou até o bosque colher frutas. Ajudo o senhor a fazer mais.
— Gabe – Paul seguro o braço do garoto – Vá descansar, você esteve trabalhando o dia todo.
— Colher frutas não é trabalho – resmungou ele correndo de volta a casa para buscar uma sexta.
— Continua superprotetor – comentou Mara depois de colocar a sexta na parte de trás da carroça.
— As marcas que deixaram nele não vão desaparecer tão fácil e o medo que ele tem de perder sua família é grande. Ele ainda acorda aos gritos no meio da noite e chora por horas antes de dormir.
— Tenho certeza que você pode ajudá-lo a superar isso meu amigo – disse Mara subindo na carroça – Você vem para a feira amanhã?
— Claro e levarei as minhas ervas para seu pai vende-las na sua barraca.
— Então até amanhã Paul! – ela acenou e começou seu caminho de volta para a vila.
Paul entrou na casa onde Sara já tinha lavado os morangos a agora procurava nos armários o mel.
— Mãe! – ela retrucou indignada – O mel acabou! Tenho certeza que foi uma daquelas pestes. Posso sentir o cheiro de lama no armário.
— Tudo bem Sara – riu Paul abraçando a menina – Tenho uma reserva guardada.
— Você mima demais eles, mãe.
— Gosto de mimar todos os meus filhos.
Feliz ela se aconchegou mais ao rapaz.

O príncipe Mathew chegou com sua comitiva na tarde daquele dia. Era um rapaz alto e imponente, com os cabelos negros presos num elegante rabo de cavalo, corpo forte e musculoso, hábil como ninguém no manejo da espada e do arco, mas o que mais chamava a atenção em seu rosto bonito eram os olhos de um incrível tom violeta.
— Mathew! – Phillip acenou de longe para o irmão descendo correndo as escadas do castelo para abraçar o irmão que quase não teve tempo e descer do cavalo – Irmãozinho!
— Por Deus Phillip – reclamou o outro apertando o irmão nos braços – Não da mais para você usar o diminutivo comigo.
Apesar de Mathew ser o irmão caçula era cerca de vinte centímetros mais alto que Phillip.
— Não importa, mesmo que esteja tão alto que eu precise erguer a cabeça para olhá-lo eu ainda vou ti ver como o meu irmão caçula.
— Deixe ele em paz, Phillip! – Gwendelyn desceu as escadas com as mãos na cintura fina.
Gwen, como gostava de ser chamada, era sua mais adorada nora. Era a filha única do príncipe Sergi do principado de Haven onde agora eu irmão reinava por causa do testamento do antigo príncipe que o nomeava herdeiro do reino. Gwen era uma mulher de rara beleza com longos cabelos loiros presos por presilhas e tranças, olhos verdes escuros sempre risonhos, a pele era muito branca, mas o nariz bem feito era cheio de sardas dando a ela um ar jovial. Seu temperamento era intempestivo e quando queria algo ia até o fim para consegui-lo.
— Como vai Mathew? – perguntou ela sorrindo ao ser beijada no rosto pelo rapaz.
— Bem cara Gwen e vejo que vocês também estão bem.
— Como foi a viagem? – perguntou Phillip pegando no braço do irmão e o conduzindo para as escadas.
— Tivemos apenas um enfrentamento, foi uma viagem chata caro irmão. Suas estradas são seguras até demais.
— Desculpe por isso Mathew – disse o príncipe com sarcasmo – De próxima vez eu solto alguns para o seu divertimento.
— Eu ia agradecer.
— Mathew!
Rindo eles entraram no castelo indo para a sala particular do príncipe. Era uma sala pequena com uma lareira onde o fogo crepitava alegremente, tapetes grossos no chão, móveis de madeira escura e uma janela que dava para o jardim coberto de rosas azuis que sempre floresciam no outono.
Mathew se jogou em um sofá confortável olhando os quadros que mostravam as batalhas que o principado já vencera.
— Como estão todos em casa, Mathew? – perguntou Phillip curioso.
— Bem nosso pai abdicou, mas ainda continua atazanando Dylan a ponto de enfurecê-lo e nossa honorável mãe só faz apontar o fato de Mirian não ter ficado grávida ainda, aliais coisa que ela ainda acusa a nossa irmã.
— Nossos pais... – Phillip nunca se dera bem com nem um deles e só suportara tudo que suportara pelos irmãos que amava muito – Tenho pena de Dylan.
— Sua mãe falou de mim? – perguntou Gwen com a expressão dura.
— Lamento Gwen...
— Ela não tem direito nem um de falar da minha vida ou da minha esposa! – Phillip quase gritou – Depois de ter tratado o restante de nós como lixo ela não pode se meter em nossa vida!
— Phillip... – sua mulher colocou a mão em seu braço percebendo que o marido tremia.
— Não me peça calma Gwen! Para nossos pais apenas Dylan importava. Éramos a piada dos reinos do norte pelo que aquela megera da nossa mãe fazia com o restante de seus filhos. Até mesmo entrar no castelo era proibido! Não sei como você pode suportar ficar lá Mathew!
— Parece que chegamos ao porque da minha visita – disse o irmão caçula um tanto constrangido – Fui sagrado cavaleiro do reino por Dylan, mas não posso mais ficar lá Phillip. “Ela” me fez ter vontade de morrer no dia da minha sagração!
— Está falando de sua mãe? – Gwen já havia escutado muitos relatos do marido sobre a mãe, mas sempre havia achado que havia algum exagero ali.
— Ela disse a todos os nobres que haviam ali que eu era seu maior erro, um maldito filho temporão que não deveria ter nascido.
— Mathew! – Phillip segurou o ombro do outro com lágrimas de raiva nos olhos – Você não volta mais para lá, entendeu? Considere minha casa sua casa também irmão.
— Obrigado – o outro sorriu não querendo mostrar o quanto aquela situação o abalava – Vim pedir abrigo aqui irmão. Sou bom guerreiro, talvez possa me usar na guarda.
— Meu cunhado na guarda?! – Gwen franziu as sobrancelhas fazendo Phillip estremecer – Você faz parte da realeza Mathew e será tratado como o príncipe que é! Podemos arranjar um bom casamento para você!
— Gwen pelo amor de Deus! Deixe ele achar sua própria mulher!
— Eu só quero ajudar, marido ingrato! – ele fez bico e chutou a perna dele.
— Você quer me aleijar mulher selvagem!
— O que?
— Devo deixar os dois a sós? – perguntou Mathew divertido.
Nesse momento os três caíram na gargalhada aliviando o ambiente pesado.

O dia seguinte amanheceu claro, com o céu azul reluzindo e o sol aquecendo o dia de outono. A rua principal estava tomada pelas barracas da feira semanal intermunicipal, onde os espaços eram abertos para que vendedores de outras cidades expusessem ali.
 — Que movimento! – Mathew olhou admirado a quantidade de pessoas circulando na rua pela janela da Casa da Administração onde estava com o irmão conversando com o prefeito.
— Toda semana é isso aos domingos – disse o prefeito, um senhor baixo de fartos bigodes e cabeleira grisalha com uma grande barriga de nome Yves Sant Loren – Nosso príncipe abre o espaço municipal para que vendedores de outros municípios venham fazer negócio aqui.
Mathew ficou olhando curioso uma figura que passeava em meio a um monte de crianças. Era uma bela moça com longos cabelos castanhos com reflexos acobreados, pele braça vestindo-se de modo estranho.
— Quem é aquela? – perguntou para o prefeito que ficou do seu lado na vidraça.
— Fala do Paul?
— É um homem?!
— Na verdade é um duo.
— Um hermafrodita... mas, eles não se parecem com uma moça como esse. A maioria é bem másculo.
— Paul é uma pessoa delicada que só quer viver em paz com sua família. Ele é muito discreto e um grande curandeiro, só costuma sofrer muito nas mãos do padre e de fanáticos religiosos. O jovem mestre sabe que para a igreja os duos são a encarnação do demônio, não é? O por que de ele se vestir daquela forma, é imposição da igreja para marca-los como rejeitados.
— E ele aceita! – Mathew perguntou intempestivamente.
— É isso ou ter o padre incitando as pessoas a ofende-lo ou aos filhos.
— Aquela criança tem filhos?
— Todas as crianças em volta dele são seus filhos, mas a maioria é adotivo, só aquele – apontou para Shon - é seu filho verdadeiro, mas se quer vê-lo nervoso é dizer que eles não são seus filhos.
— Onde esta seu companheiro ou companheira que não o esta ajudando com aquela tropa de crianças?
— Paul vive só no bosque. Não sei quem é pai de menino e acho que ele nunca contou para ninguém.
— Conhece bem esse Paul.
— Ele praticamente salvou a vila quando a peste negra passou por aqui. Suas ervas são ótimas.
— Finalmente – Phillip saiu da sala de conferências onde conversava com um prefeito de uma vila vizinha – Que tal voltarmos Mathew?
— Vou até a feira Phillip, lá em casa não há uma tão grande.
— Gostaria de ti acompanhar irmão, mas tenho trabalho no castelo.
— Tudo bem, vou só dar uma andada e volto para lá.

Paul chegou até a barraca do pai de Mara. Hugh era um homem alto, de cabelos curtos, pele morena do sol e muito musculoso. Havia trabalhado na guarda do castelo, mas ao matar pela primeira vez se sentiu tão mau que se recusou a faze-lo novamente e deixou de ser soldado para ser um simples verdureiro. Simples não era a expressão que Paul usaria, pois Hugh era muito bonito e os cabelos grisalhos só aumentava seu charme, ele mesmo gostava de olhar para o pai de sua melhor amiga.
— Oi Paul, crianças – disse ele alegre em ver o rapaz.
— Oi Hugh. Como esta hoje?
— O movimento está começando a aumentar – respondeu ele colocando as verduras que colhera mais cedo na horta que tinha na sua propriedade.
— As ervas – Gabe colocou a sexta na mão do grande homem que sorriu para ele.
— Que tal me ajudar hoje Gabe?
— Sim senhor – respondeu o garoto todo alegre. Gabe tinha verdadeira adoração por Hugh que personificava uma figura paterna.
— Não tem problema Hugh? – perguntou Paul preocupado vendo o garoto ajudar a arrumar as verduras.
— Sabe que eu adoro quando seus filhos me ajudam Paul. Gabe é um bom vendedor.
Gabe ficou muito vermelho, mas Paul percebeu que ele tinha ficado feliz com o elogio de Hugh.
— Quero ajudar! – Shon fez bico e olhou para a mãe com os grandes olhos violetas suplicantes.
— Você não ajuda nada, baixinho – resmungou Gabe contrariado.
— Nós também! – gritaram juntos Jared e Jason.
— Vocês só fazem bagunça! – disse Sara que segurava na mão de Paul para andar – Hugh não vai vender se um bando de crianças ficar atrapalhando ele – Virou-se para a mãe – Mãe!
— Não se preocupe Sara – Mara chegava carregada de sextos – Eu olho os dois e tenho certeza de que Shon vai ser de grande ajuda, não é? – ela sorriu para o garoto de olhos violetas que retribuiu – Porque vocês dois não vão fazer compras?
— Mara... – Paul ia protestar sabendo de ante mão que, apesar de seus filhos serem boas crianças, ainda eram isso, crianças.
— Você sabe que eu gosto de tomar conta deles. Vá Paul!
O rapaz deu um longo suspiro olhando para os quatro filhos metidos na barraca de Hugh.
— Sejam obedientes com Hugh e Mara – disse ele – ou não o ajudaram nunca mais.
— Você vai se arrepender Mara – disse Sara levantando uma sobrancelha – Cuidar de quatro bárbaros não é fácil.
— Você é uma santinha por acaso, Sara? – retrucou Gabe que não gostou de ser chamado de bárbaro.
— Pois eu sou melhor vendedora que um moleque magricela como você – coquete ele passou a mão pelos cabelos loiros – Ninguém resiste a uma mulher bonita.
— Mulher bonita? – Gabe fez de conta que olhava o horizonte – Onde?
— Chega os dois – disse Paul com a voz dura – Vamos Sara!
— Eu também quero ficar – ela cruzou os braços olhando raivosa para onde Gabe estava. Ela sempre conseguia saber onde estava cada irmão pelo cheiro que cada um deles tinha – Vou mostrar para esse idiota sarcástico como se vende!
— De jeito nem um! – Paul segurou a mão dela – Vocês dois no mesmo espaço seria com a grande catástrofe acontecendo novamente!
A menina fez um grande bico, mas acompanhou Paul que olhava as barras atrás das coisas que estava procurando.
— Mãe estamos perto da barrada da tia Anna – ela voltou a cheirar o ar – Tem torta de nozes! Posso comprar uma?
— Barraca da Anna? – Paul olhou em volta – Onde?
— Acredito que uns trinta metros a frente, do lado direito da rua.
— Vamos lá então e comprar alguns doces.
— Mãe – Sara segurou a manga da longa túnica que usava – Tem alguém nos observando.
— Tem muita gente nos observando Sara.
— Ele esta perto da gente a nossa esquerda uns dois metros e cheira a cedro e maçã. É um homem alto, com botas e usa uma espada.
Paul não resistiu e olhou para a sua esquerda procurando o homem descrito por sua filha e quase engasgou ao vê-lo. Era um belo homem de cabelos negros amarrados e corpo forte, mas o que mais chamou a sua atenção foram os olhos de um incrível tom violeta fixos nele.
— Gosto do seu cheiro! – disse Sara em voz alta voltando o rosto para o estranho.
— Sara! – repreendeu Paul apertando o ombro da menina que nem fez caso, continuou sorrindo para o estranho.
— Meu cheiro? – surpreendeu-se Mathew se aproximando das pessoas que vinha observando a vários minutos.
— Seu cheiro – respondeu Sara com desenvoltura – Como eu não posso ver eu ligo as pessoas a um cheiro. Você cheira a maçãs e cedro.
— Você é cega?! – Mathew não pode deixar de exclamar pasmo.
— Desculpe a insolência da minha filha, senhor – Paul inclinou-se rígido – Nos dê licença.
— Porque esta se desculpando? A menina não fez nada de errado, aliais ela é admirável.
Parece que aquela não foi a coisa certa a ser dita. O rapaz apertou os olhos cor e mel olhando-o com frieza e puxou a filha pela mão. A menina sorriu para ele e se foi com o belo rapaz.
Mathew havia seguido Paul por toda a feira sem saber por quê. Algo naquele hermafrodita havia chamado a sua atenção a ponto de segui-lo por todo o lado, mas aquilo estava passando dos limites! Com raiva se virou e tomou o caminho do castelo.
Enquanto isso Paul repreendia Sara.
— Sara será que eu não ti ensinei que não se deve conversar com estranhos! É muito perigoso!
— Ele não era perigoso, mãe – a menina sorriu para ele – Pelo menos não para mim. Ele estava interessado em você!
— Larga de dizer bobagens Sara! Ele era um nobre, jamais estaria interessado em alguem como eu.
— Eu errei alguma vez?
Paul balançou a cabeça, mas teve que concordar. Sara conseguia perceber as intenções das pessoas melhor d que as pessoas que podiam ver.
— Mesmo assim Sara – Paul abraçou os ombros da filha – Ele só deveria estar curioso em relação a gente e não interessado particularmente em mim.